
Ángel Manuel Rodríguez
BRI (retired)
Entre os desastres que ocorreram neste planeta nenhum pode ser comparado com a queda de Adão no pecado. Na verdade, é por causa desta catástrofe inicial ou original que temos confrontado e experimentado todos os outros desastres. Não entendemos completamente o que aconteceu quando Adão pecou e nunca seremos plenamente capazes de entender. Podemos apenas testemunhar o fato que existe alguma coisa indescritível e horrorosamente errada conosco e com o mundo em que vivemos e que as Escrituras a traça desde a queda de Adão e Eva no pecado. É somente através da morte sacrificial de Cristo como nosso substituto que existe esperança para a raça humana.
A. Resultados da Queda de Adão
Explorarei aqui o que E. G. White tem a dizer a respeito dos resultados e consequências do pecado de Adão sobre a humanidade e o mundo. O estudo é limitado às declarações que ela fez no contexto de referências diretas a Adão e Eva.
1. Separação de Deus
No Éden os seres humanos mantinham comunhão plena e companheirismo perfeito com Deus, mas como resultado do pecado “a ligação entre o Céu e a Terra foi cortada”1 e o homem finito foi separado do Deus infinito.2 Em termos mais práticos isto significa que “o Senhor não Se comunicaria com ele [Adão] depois que ele pecou como o fazia quando ele estava sem pecado.”3 Após sua criação Adão “gozava plena comunhão com seu Criador. Desde, porém, que o homem se separou de Deus pela transgressão, a raça humana ficou privada desse alto privilégio.”4 O problema era tão sério que “o Deus santo e infinito, que habita na luz inacessível, não podia mais falar com o homem. Agora não podia mais existir comunhão diretamente entre o homem e seu Criador.”5 O casal estava “separado da luz e do amor de Deus.”6 Observe que não é afirmado que Deus deixou de ama-los, mas preferivelmente que era impossível para Seu amor abundante e rico os alcançasse. Existia um abismo intransponível entre Deus e os seres humanos. Se devia acontecer alguma coisa para mudar essa situação Deus teria que tomar a iniciativa.
2. Perda de Privilégios
Colocados por Deus no Jardim do Éden Adão e Eva tinham muitos privilégios que tornavam sua existência muito significativa e agradável, porém eles os perderam por causa do pecado. Entre estes podemos mencionar iluminação espiritual e intelectual e acesso à árvore da vida. A luz que os cercava foi removida indicando que eles tinham perdido sua santidade7 e inocência e que agora as trevas da ignorância os possuía. Eles eram incapazes por si mesmos de reconhecer o caráter de Deus em Suas obras criadas.8 Eles tinham perdido seu privilégio de comer do “imortal fruto da árvore da vida.”9
3. Nova Condição
A escravidão ao Pecado trouxe consigo um deslocamento da natureza humana de sua órbita espiritual e uma busca por um novo centro e um novo papel dentro do mundo criado. Era a intenção de Deus que Adão “permanecesse como a cabeça da família terrestre, afim de manter os princípios da família celestial.”10 Ele devia realizar esta função sob a orientação e liderança do Próprio Deus. Esta era a ordem de Deus pretendida para o planeta e caso fosse seguida resultaria na paz e felicidade para todos. Mas Satanás estava determinado a se opor e mudar a intenção divina.
Quando Adão pecou, os seres humanos “se separaram do centro ordenado do Céu. Um demônio se tornou o poder central no mundo. Onde o trono de Deus deveria estar, Satanás colocou seu trono.”11 Consequentemente, Satanás transformou “o homem, criado para ser um soberano no Éden, em escravo na Terra, gemendo sob a maldição do pecado.”12 Desde então o ser humano “não podia vencer a Satanás com sua força humana ... Não era possível ao homem, fora do Éden, separado, desde a queda, da luz e do amor de Deus, resistir em sua própria força às tentações de Satanás.”13
Alguma coisa misteriosamente má aconteceu à própria natureza humana que resultou em sua escravização sob o poder do pecado. “Na transgressão Adão se tornou uma lei para si mesmo. Pela desobediência ele foi levado à servidão. Desse modo um elemento discordante, nascido do egoísmo, entrou na vida do homem. A vontade do homem e a vontade de Deus não estavam mais harmonizadas. Adão se uniu às forças desleais, e a vontade própria entrou em campo.”14 A natureza humana se tornou tão corrompida que era impossível que os seres humanos fizessem o bem por si mesmos. É próprio à “natureza do pecado se espalhar e aumentar. Desde o primeiro pecado de Adão, de geração em geração ela tem se espalhado como uma doença contagiosa.”15 Satanás foi bem-sucedido em levar Adão a pecar, “desse modo sua própria fonte da natureza humana foi corrompida.”16
Consequentemente, os descendentes de Adão não poderiam herdar de ele aquilo que ele não possui depois da queda. “Sete, possuía um caráter digno, e devia assumir o lugar de Abel em fazer o que é correto. Contudo, ele era um filho de Adão pecaminoso como Caim, e não herdou mais bondade natural de Adão do que Caim. Ele nasceu em pecado...”17 Essa natureza humana pecaminosa e rebelde caracteriza cada pessoa que naturalmente nasce neste planeta de pecado. “A herança dos filhos é essa do pecado. O pecado os separou de Deus. Como são aparentadas com o primeiro Adão, os homens recebem de ele nada além da culpa e sentença de morte.”18 “Adão pecou, e os filhos de Adão compartilham sua culpa e consequências.”19 A escravidão humana ao pecado não é aquela de um poder estranho de fora que nos influencia e nos coage à pratica do mal, mas uma que assumiu o controle de nossos seres e agora nos conduz naturalmente e desejosos de pecar. Como uma consequência do pecado de Adão seus descendentes “nascem com propensões herdadas para a desobediência.”20 A posteridade de Adão “tornou-se depravada; pela desobediência de um homem muitos foram feitos pecadores.”21
4. Morte e Miséria
Os resultados do pecado de Adão não podem ser plenamente compreendidos por nós porque a magnitude do dano causado não é totalmente apreendida por nós. O pecado teve um impacto no Céu e particularmente em nosso mundo: “A tristeza encheu o Céu ante a realidade que o homem se perderá e que o mundo que Deus havia criado se encheria de mortais condenados à miséria, enfermidade e morte e que não havia meio de escape para o ofensor. Toda a família de Adão tinha que morrer.”22 Nenhum ser humano seria capaz de escapar da morte. Depois de pecar, Adão e Eva “estavam sob a servidão da lei. Por causa de sua transgressão eles estavam sentenciados a sofrer a morte, a penalidade do pecado.”23 Foi então que “a família humana recebeu a ferida mortal causada pela transgressão de Adão.”24 A possibilidade de imortalidade, prometida a Adão e Eva por Deus, “foi perdida pela transgressão. Adão não poderia transmitir à sua posteridade aquilo que não possuía.”25 Sua transgressão “tinha trazido miséria e morte”26 e “o mundo tem por longas eras sido inundado com a miséria.”27
O mundo natural foi drasticamente afetado pelo ato de rebelião de Adão. Deus criou ele e sua esposa para governarem sobre a terra; todas as criaturas vivas e a própria natureza estavam em sujeição a eles. “Mas quando ele se rebelou contra a lei divina, as criaturas inferiores entraram em rebelião contra seu governo.”28 De um modo misterioso o “espírito de rebelião, a que ele próprio havia dado entrada, estendeuse por toda a criação animal. Destarte, não somente a vida do homem, mas a natureza dos animais, as árvores da floresta, a relva do campo, o próprio ar que ele respirava, tudo apresentava a triste lição da ciência do mal.”29 O pecado afetou não somente a própria natureza dos seres humanos, mas o mundo natural; ambos “entraram sob o controle do maligno.”30
5. Conclusão
Podemos sumariar a discussão declarando simplesmente que “em Adão tudo se perdeu, pela transgressão.”31 A único meio de sair do apuro humano foi providenciado por Deus através da obra redentora de Seu Filho. “Então foi que o grande amor de Deus foi expresso a nós num único dom, de Seu querido Filho. Se nossos primeiros pais não tivessem aceitado o dom, a raça estaria hoje em uma miséria sem esperança.”32
B. Relação Humana Com Adão
O fato que a transgressão de Adão teve um efeito tão devastador sobre a raça humana indica que Adão e seus descendentes estão intimamente relacionados um com o outro. A natureza dessa solidariedade tem sido uma fonte de controvérsia teológica na igreja Cristã por muitos séculos e o debate ainda continua hoje. Como Adventistas é importante levarmos em consideração os escritos de E. G. White quando tentamos lançar alguma luz sobre um assunto difícil.
1. Adão Como Cabeça da Família Humana
Referências a Adão como líder da humanidade são muito raras nos escritos de E. G. White. Para dizer a verdade, o que ela diz é que “sob a orientação de Deus, Adão devia permanecer como a cabeça da família terrestre, afim de manter os princípios da família celestial.”33 A ideia expressa pela frase “permanecer como a cabeça” parece ser uma posição de liderança. Ele foi designado por Deus para manter os princípios da família celestial aqui na terra provavelmente no sentido de instruir seus descendentes sobre a vontade de Deus para eles. Tristemente, ele falhou. Todavia, a declaração nos ajuda um pouco a entender um aspecto da natureza do relacionamento entre Adão e o restante da humanidade.
2. Adão Como Representante da Raça Humana
Provavelmente o exemplo mais significativo do uso do termo “representante” para designar Adão seja o seguinte:
No Éden, Deus estabeleceu o memorial de Sua obra da criação, colocando Sua bênção sobre o sétimo dia. O sábado foi confiado a Adão, pai e representante de toda a família humana. Sua observância deveria ser um ato de grato reconhecimento, por parte de todos os que morassem sobre a Terra, de que Deus era seu Criador e legítimo Soberano; de que eles eram a obra de Suas mãos, e súditos de Sua autoridade. Assim, a instituição era inteiramente comemorativa, e foi dada a toda a humanidade. Nada havia nela prefigurativo, ou de aplicação restrita a qualquer povo.34
Existem vários conceitos importantes presentes nessa declaração que precisamos examinar. Primeiro, Deus instituiu o Sábado e então o confiou ou o entregou a Adão. Isso significa que Ele esperava que o sábado fosse observado. Segundo, Adão recebeu o Sábado de Deus como o pai e representante da raça humana, portanto ao confiar o Sábado a ele Deus o estava confiando “à toda humanidade.” Como devemos entender o papel de Adão como representante da raça humana neste caso em particular? Cada membro da raça humana estava presente “nele” no momento em que Deus Se dirigiu a ele? Vamos continuar.
Terceiro, a natureza de seu papel como representante da raça humana é esclarecido pela frase “pai e representante de toda a família humana.” Como pai da raça ele era “a própria fonte da natureza humana.”35 O fato que Adão é declarado ser o pai da raça indica claramente que seus membros ainda não existiam quando Deus estava falando com ele. Eles existirão no futuro e Adão será o pai deles. É por eles não estarem presentes no jardim com Adão que ele pode funcionar como seu representante. Representação significa que por alguma razão em particular aqueles que são representados não poderiam estar presentes onde o representante está, mas que no futuro eles mesmos serão capazes de estar presentes. Isto é precisamente o que E. G. White está dizendo. Deus deu o Sábado a Adão como indivíduo e como representante da raça humana. Porém, uma vez que os descendentes de Adão estivessem presentes era esperado que ele os instruísse na observância do Sábado e que eles se tornassem tão responsáveis quanto o próprio Adão pela observância do Sábado. Não existe absolutamente nada aqui sobre o motivo “em Adão” de acordo com o qual cada ser humano estivesse presente em Adão em algum sentido realístico ou místico.
3. Adão e a Pecaminosidade da Raça Humana
E. G. White não especula a respeito da relação entre o pecado de Adão e nossa pecaminosidade; contudo, ela estabelece uma conexão em termos dos resultados e não em termos da participação real de todos no pecado de Adão. Ela escreve: “Adão desobedeceu, e impôs o pecado sobre sua posteridade.”36 O verbo “impor” se torna muito importante. Ele significa “ter ou requerer como um efeito secundário necessário ou resultado,” e enfatiza a ideia de um resultado ou consequência inevitável. A condição da posteridade de Adão é o resultado da desobediência de Adão. E. G. White está fazendo uma importante distinção entre Adão e sua posteridade. Não foi a posteridade de Adão que desobedeceu quando ele desobedeceu, porém sua posteridade sofre as consequências de seu ato de desobediência.
O pecado que Adão impôs sobre sua posteridade é o pecado que resulta de uma natureza humana pecaminosa depravada que não pode dominar o pecado por si mesma porque através do pecado de Adão ela foi separada de Deus.37 É a este fenômeno que parece estar se referindo quando ela escreve: “Adão era dotado de uma natureza pura e sem pecado, mas ele caiu porque deu ouvidos às sugestões do inimigo. Sua posteridade se tornou depravada; pela desobediência de um homem muitos foram feitos pecadores.”38 A natureza de Adão não era originalmente depravada; ela era pura e sem pecado. Mas através do seu pecado ela se tornou depravada e sua posteridade recebeu de ele a natureza humana depravada. Ele não poderia transmitir para eles aquilo que ele não tinha. É apenas nesse sentido que “pela desobediência de um homem muitos foram feitos pecadores.” Eles não foram feitos pecadores porque pecaram quando Adão pecou, mas porque herdaram de Adão a natureza pecaminosa e rebelde que tornou impossível para eles vencer o pecado por si mesmos. Eles nasceram em uma condição e estado pecaminosos, isto é, separados de Deus, o que tornou os atos pecaminosos inevitáveis.
É neste sentido que devemos entender a seguinte declaração: “A herança dos filhos é essa de pecado. O pecado os separou de Deus. Como relacionados ao primeiro Adão, os homens recebem de ele nada a não ser culpa e sentença de morte.”39 Não podemos herdar de Adão a santidade e pureza porque ele as perdeu. Herdamos de ele uma natureza humana pecaminosa, caída, separada de Deus, culpa de rebelião contra o Criador, e enfrentando adiante extinção eterna. A necessidade de um Salvador é imensa.
4. Adão e o Destino da Raça Humana
Uma forte solidariedade entre Adão e a raça humana parece ser estabelecida na seguinte declaração: “Deus disse a Adão, e a todos os descendentes de Adão: ‘Com o suor de tua face comerás o teu pão; porque daqui em diante a terra deve ser trabalhada sob a desvantagem da transgressão. Espinhos e ervas daninhas ela produzirá.’”40 Pode-se adicionar a isso a seguinte sentença: “A primeira maldição foi pronunciada sobre a posteridade de Adão e sobre a terra, por causa da desobediência.”41
Uma leitura superficial dessas declarações poderia dar ao leitor a impressão que desde que Deus estava Se dirigindo a Adão e seus descendentes, os descendentes devem ter estado presentes nele de alguma forma. Mas isso certamente não é o que E. G. White está dizendo. Para dizer a verdade ela está fazendo uma distinção entre Adão e “todos os descendentes de Adão” ao chamá-los de “descendentes.” Eles ainda não estão ali de alguma forma ou condição; eles virão à existência no futuro como seus descendentes. Contudo, o que Deus está dizendo a Adão no jardim do Éden, se aplicará com a mesma força aos seus descendentes bem como a ele. A maldição que veio como resultado do pecado de Adão afetará não somente a Adão e Eva, mas a todos os seus descendentes. Eles experimentarão os resultados de seu pecado.
O pecado de Adão teve um efeito muito mais radical sobre a raça humana: “A tristeza encheu o Céu ante a realidade que o homem se perderá e que o mundo que Deus havia criado se encheria de mortais condenados à miséria, enfermidade e morte e que não havia meio de escape para o ofensor. Toda a família de Adão tinha que morrer.”42 Em outro lugar ela escreve sobre o momento “quando a família humana recebeu a ferida mortal causada pela transgressão de Adão.”43 A raça humana, criada por Deus e representada por Adão, estava ameaçada de total extinção. A morte não seria apenas a de Adão por seu próprio pecado, mas também a experiência de toda a família de Adão por causa do seu pecado. Isto não resultou da presença mística da família de Adão nele, mas simplesmente o resultado de tê-lo como nosso ancestral comum: “Como filhos de Adão, somos portadores da natureza mortal de Adão.”44
5. A Esperança de Adão e a Esperança da Raça Humana
Sem Cristo, Adão e seus descendentes teriam experimentado uma vida de miséria e sofrimento neste planeta e finalmente teriam experimentado a morte eterna. Mas Deus ofereceu a Adão e Eva a oportunidade de perdão, salvação e restauração ao seu estado original através de Seu Filho. Esta oferta não estava disponível apenas para Adão, mas para todos os seus descendentes. A decisão de Adão em aceita-la teve um impacto positivo sobre seus descendentes. “Então foi que o grande amor de Deus foi expresso a nós em um dom, Seu Filho querido. Se nossos primeiros pais não tivessem aceitado o dom, a raça estaria hoje em desesperadora miséria. Mas quão alegremente eles saudaram a promessa do Messias. É o privilégio de todos aceitar este Salvador, para se tornar filhos de Deus, membros da família real e por fim se sentar à mão direita de Deus.”45 Como resultado da decisão de Adão e Eva de aceitarem o dom da salvação, existe esperança disponível para a raça humana; de outra maneira estaríamos hoje “em desesperadora miséria.” Eles aceitaram a oferta de salvação, o dom do Pai providenciado para eles, e portanto o mesmo dom agora é acessível a nós. Devemos fazer o que nossos antepassados fizeram, “aceitar este Salvador.” Nós não estávamos “nele” quando ele aceitou a salvação que lhe foi oferecida; de outra maneira ela seria nossa e não haveria necessidade de nós a aceitarmos. Contudo, sua decisão tornou a oferta de salvação disponível para seus descendentes também.
Ideias semelhantes são expressas em outra parte por E. G. White, usando linguagem e imagens diferentes: “Foi concedido a Adão e Eva um período de prova para retornarem à sua aliança; e neste plano de benevolência toda sua posteridade estava incluída.”46 A ideia, novamente, não é que quando Deus concedeu a Adão e Eva a um período de prova na verdade estava dando a nós por que estávamos em Adão, mas sim que a mesma oportunidade foi dada à sua posteridade. O que foi oferecido a ele também foi estendido aos seus descendentes. Isto é mais claramente expresso na seguinte citação: “Permanecemos como Adão, com a oportunidade de uma segunda prova, afim de demonstrarmos nossa aliança com o Governo de Deus.”47 Deus está nos tratando da mesma maneira que Ele procedeu com Adão e Eva: “Adão perdeu o Éden, sendo posto à prova, com toda a sua posteridade.”48 O que Deus fez por Adão, também fez em favor de todos os seus descendentes a quem ele representava como o pai da raça.
C. O Que Deus Fez Por Adão
Depois da queda, Cristo se tornou o Mediador entre os humanos e Deus. “Ele agiu no lugar de Deus com respeito à humanidade, salvando a raça da morte imediata. Ele tomou sobre Si a obra de mediador...”49 Não estamos separados permanentemente de Deus, embora a comunicação não seja como antes. Como resultado do pecado de Adão e Eva “não tem havido comunicação direta entre Deus e o homem. O Pai entregou o mundo nas mãos de Cristo, para que por Sua obra mediadora remisse o homem, e reivindicasse a autoridade e santidade da lei de Deus. Toda a comunhão entre o Céu e a raça decaída tem sido por meio de Cristo.”50 Foi no batismo de Cristo que a voz de Deus foi novamente ouvida neste planeta por um ser humano, Seu Filho Amado. Entretanto a sentença de morte para a raça humana foi adiada afim de dar aos humanos uma chance para se arrependerem e retornarem para Deus. “Por causa de sua transgressão eles [Adão e Eva] foram sentenciados a sofrer a morte, a penalidade do pecado. Mas Cristo, a propiciação por nossos pecados, declarou: ‘Eu permanecerei no lugar de Adão. Eu tomarei sobre mim a penalidade de seu pecado, ele terá outro julgamento. Eu lhe assegurarei uma prova. Ele terá os privilégios e as oportunidades de um homem livre, e lhe será permitido exercer seu poder de escolha concedido por Deus. Eu adiarei o dia de sua citação para julgamento. Ele será obrigado a comparecer no tribunal Deus no julgamento.’”51
Existem vários detalhes importantes nessa declaração que merecem atenção. Primeiro, a execução da pena de morte sobre Adão e Eva foi adiada porque Cristo estava para assumir seu lugar. Segundo, eles teriam outro julgamento, entretanto, estariam sob prova. Foi concedido a eles o tempo e a oportunidade de voltarem à aliança com Deus. Terceiro, afim de que isso acontecesse as transgressões do pecado tinham que ser limitadas. Através de Cristo a liberdade humana foi preservada permitindo aos seres humanos exercerem seu poder de escolha concedido por Deus. Eles não foram totalmente escravizados pelo poder do pecado. Eles ainda podem escolher retornar para o Senhor. Então, haverá um julgamento quando cada um terá que assumir a responsabilidade por suas ações.
Por causa de Cristo, os humanos podem ser vitoriosos sobre o poder do pecado: “Porque o homem caído não poderia vencer Satanás com sua força humana, Cristo veio das cortes celestiais para ajudá-lo com Sua força humana e divina combinadas... Ele obtém para os caídos filhos e filhas de Adão essa força que é impossível para eles adquirir por si mesmos, para que em Seu nome eles possam vencer as tentações de Satanás.”52 A vida de ninguém deve ser mais determinada e controlada por uma natureza humana que não poder dominar o poder do pecado. Através de Cristo recebemos poder para nossa natureza caída.
Sumariando podemos dizer que:
O Filho de Deus, ao se comprometer se tornar Redentor da raça, colocou Adão em uma nova relação com seu Criador. Ele ainda estava caído; mas a porta de esperança estava aberta para ele. A ira de Deus ainda pairava sobre Adão, mas a execução da sentença de morte foi adiada, e a indignação de Deus foi restringida, porque Cristo tinha assumido a obra de se tornar Redentor do homem. Cristo devia aceitar a ira de Deus que em justiça deveria ter recaído sobre o homem. Ele tornou-se um refúgio para o homem, e, embora o homem fosse realmente um criminoso, merecendo a ira de Deus, contudo ele poderia, pela fé em Cristo, correr para o refúgio providenciado, e estar a salvo. Em meio a morte, havia vida se o homem escolhesse aceita-la.53
D. Conclusão
É óbvio que para E. G. White existe uma forte solidariedade entre Adão e a raça humana. O que ele fez teve um impacto sobre seus descendentes. Ela não especula a respeito da natureza dessa solidariedade, mas simplesmente a explica em termos do fato bíblico que Adão foi o primeiro ser humano no planeta e o pai da raça humana. A solidariedade é baseada no entendimento de Adão como sendo o ancestral comum de cada membro da raça humana. Ele como cada um de seus descendentes, era responsável diante de Deus. Quando Adão, em um ato de rebelião, pecou contra Deus, sua natureza foi corrompida, enfraquecida, e ficou sujeito ao poder escravizante do pecado. Sendo o pai da humanidade, sua posteridade recebeu de ele a única coisa que ele tinha, uma natureza pecaminosa separada de Deus, incapaz de obedece-Lo, escravizada pelo pecado, e destinada à perdição eterna.54 Mas quando Adão aceitou o dom da salvação oferecido a ele por Deus ele também providenciou a possibilidade para sua posteridade aceitar a mesma oferta de salvação. Toda bênção que Deus providenciou para Adão também se tornou disponível para seus descendentes.
Não existem indícios nos escritos de E. G. White da ideia que a raça humana estava presente “em Adão” e que quando ele pecou cada um de nós pecou porque estávamos de alguma maneira realística nele. Nem encontramos em seus escritos a ideia que o pecado de Adão foi imputado à raça humana. O pecado de Adão foi seu próprio pecado, mas ele teve um impacto universal e afetou negativamente cada membro da raça humana, que agora nasce em estado de separação de Deus e incapaz de vencer o poder do pecado. Ele determinou nosso destino. Mas, graças a Deus por Jesus Cristo, através de quem temos redenção! Agora Ele é o único que determina nosso destino.
Para Conhece-Lo, p. 82.
Back to reference“Christ’s Comforting Assurance,” Signs of the Times, June 17, 1889, par. 8
Back to referenceConflict and Courage, p. 20.
Back to referenceA Maravilhosa Graça de Deus, p. 188.
Back to referenceThe Temptation of Christ in the Wilderness, p. 16.
Back to referenceMaranata – O Senhor Vem!, p. 222.
Back to referenceMensagens Escolhidas, vol. 1, p. 270: “O halo de glória, que Deus dera ao santo Adão, e que o cobria como um vestido, deixou-o após sua transgressão. A luz da glória de Deus não podia cobrir a desobediência e o pecado.”
Back to referenceMensagens Escolhidas, vol. 1, p. 291: “... a luz das vestes da inocência celestial se afastou deles; e, separados das vestes da inocência, aconchegaram a si as negras vestes da ignorância a respeito de Deus. A clara e perfeita luz que os tinha circundado tinha iluminado todas as coisas de que se aproximavam; mas, privados dessa luz celeste, a posteridade de Adão não pode por mais tempo reconhecer o caráter de Deus em Suas obras criadas.”
Back to referencePrimeiros Escritos, p. 126.
Back to referenceMind, Character, and Personality, vol. 2, p. 566.
Back to referenceIbid.
Back to referenceMensagens Escolhidas, vol. 1, p. 270.
Back to referenceMaranata, p. 222.
Back to reference“Christ’s Sacrifice for Man,” Signs of the Times, June 13, 1900, par. 3.
Back to referenceReflecting Christ, p. 321.
Back to reference“The Warfare Between Good and Evil,” Adventist Review and Herald, April 16, 1901, par. 5.
Back to referenceSpiritual Gifts, vol. 3, p. 53. Ela esclarece, que “Ao passo que Adão foi criado sem pecado, à semelhança de Deus, Sete, como Caim, herdou a natureza decaída de seus pais” (Patriarcas e Profetas, p. 80).
Back to referenceManuscripts Releases, vol. 9, p. 236.
Back to referenceFaith and Works, p. 88.
Back to referenceSDA Commentary, vol. 5, p. 1128.
Back to referenceYouth’s Instructor, June 2, 1898, par. 4. Ela também escreveu: “Como resultado da transgressão de Adão, o pecado penetrou no belo mundo criado por Deus, e os homens e as mulheres tornaram-se cada vez mais ousados em desobedecer a Sua lei” (Fundamentos da Educação Cristã, p. 504).
Back to referencePrimeiros Escritos, p. 126.
Back to reference“Christ the Propitiation for Our Sins,” Atlantic Union Gleaner, August 19, 1903, par. 1.
Back to referenceManuscript Releases, vol. 11, p. 365.
Back to referenceO Grande Conflito, p. 533.
Back to referencePatriarcas e Profetas, p. 67.
Back to referenceYouth’s Instructor, August 6, 1884, par. 3.
Back to referenceConflict and Courage, p. 18.
Back to referenceA Maravilhosa Graça de Deus, p. 39.
Back to reference“When Sin Entered,” Signs of the Times, November 4, 1908, par. 9.
Back to referenceMensagens Escolhidas, vol. 1, p. 283.
Back to reference“Seek first the Kingdom of God,” Second Advent Review and Sabbath Herald, October 27, 1885, par. 4.
Back to referenceMind, Character, and Personality, vol. 2, p. 566.
Back to referencePatriarcas e Profetas, p. 48.
Back to reference“The Warfare Between Good and Evil,” Advent Review and Herald, April 16, 1901, par. 5.
Back to referenceManuscript Releases, vol. 6, p. 3.
Back to referenceEla escreveu em outro lugar: “Antes que o pecado entrasse no mundo, Adão gozava plena comunhão com seu Criador. Desde, porém, que o homem se separou de Deus pela transgressão, a raça humana ficou privada desse alto privilégio” (A Maravilhosa Graça de Deus, p. 188). Embora alguns possam ter a impressão que E. G. White esteja sugerindo aqui que quando Adão se separou do Senhor toda a raça humana se separou do Senhor, isso não é exatamente o que ela está dizendo. Ela faz uma distinção entre a transgressão de um homem e o que ela significou para a raça humana. Através de sua transgressão Adão se separou de Deus e o resultado foi que a raça humana foi excluída do privilégio da comunhão aberta com Deus.
Back to reference“The Second Adam,” Youth’s Instructor, June 2, 1898, par. 4.
Back to referenceManuscript Releases, vol. 9, p. 236. Existem vários lugares nos escritos de Ellen G. White onde ela associa a culpa de Adão com seus descendentes. Ela escreveu: “O pecado de nossos primeiros pais, dando ouvidos às enganosas tentações do inimigo, trouxe sobre o mundo culpa e tristeza, levando o Filho de Deus a deixar as cortes celestiais e tomar um lugar humilde na Terra” (Testemunhos, vol. 4, p. 248; veja também, Patriarcas e Profetas, p. 61; “The Permanence of Truth,” Signs of the Times, June 3, 1886, par. 10; e “The Law of God Not Abrogated by the Saviour,” Southern Watchman, August 11, 1908, par. 9). Aqui culpa e tristeza claramente são consequências do pecado de Adão que afetou nosso mundo. Nenhuma informação mais específica é dada ali concernente à natureza dessa culpa. Discutindo a seriedade do pecado de Adão ela diz: “Pareceu uma questão pequena para nossos primeiros pais transgredir a ordem de Deus naquele ato de comer de uma árvore que era tão bela à vista, e tão prazerosa ao paladar; mas eles romperam sua aliança com Deus, e abriram os portões a um dilúvio de culpa e tristeza” (“One of the Greatest Temptations: A Sympathizer Clothed with Power,” Sings of the Times, December 1, 1914, par. 2). Novamente, culpa e tristeza são os resultados ou consequências diretos do pecado de Adão que afetou a todos. Observe também que agora o pecado de Adão e Eva é definido como rompendo sua aliança com Deus, isto é, como um ato de rebelião.
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A respeito dos filhos ela diz: “Estes queridos filhos receberam de Adão uma herança de desobediência, de culpa e morte” (Manuscript Releases, vol. 13, p. 14). Os filhos não estão isentos dos resultados do pecado de Adão. Desobediência, culpa e morte são seu estado natural e condição como resultados do pecado de Adão. Mais desafiadora é a seguinte citação: “Adão pecou, e os filhos de Adão compartilham sua culpa e suas consequências; mas Jesus carregou a culpa de Adão, e todos os filhos de Adão que quiserem procurar refúgio em Cristo, o segundo Adão, podem escapar da penalidade da transgressão” (“Obedience is Sanctification,” Signs of the Times, May 19, 1890, par. 8; também Faith and Works, p. 88). Nesta declaração ela não está se referindo à culpa que incorremos através de nosso pecado pessoal. Ela não explica como compartilhamos da culpa de Adão ou o que ela é. A declaração implica que culpa parece ser uma condição que é seguida por algumas consequências específicas.
Em outro lugar ela usa o verbo “receber” em vez de “compartilhar:” “Como relacionados ao primeiro Adão, os homens recebem de ele nada mais a não ser culpa e sentença de morte” (SDA Commentary, vol. 6, p.1074). Adão pecou e o resultado foi que estamos em um estado de culpa e sentenciados a morrer. O restante da citação sugere que a condição de culpa e morte na qual nos encontramos significa que estamos desconectados, alienados de Deus através do pecado de Adão. Ela continua a descrever que Cristo nos salva e os resultados dessa salvação: “Ele redime a ignominiosa falha e queda de Adão saindo da prova imaculado. Isto coloca o homem em uma posição vantajosa diante de Deus. Isto o coloca onde, devido à aceitação de Cristo como seu Salvador, ele se torna um portador da natureza divina. Assim ele se torna conectado com Deus e com Cristo” (Ibid.) Se o resultado de aceitar a Cristo como Salvador é estar unido a Deus, então, “culpa” significa a condição oposta, estar em um estado de rebelião contra Deus e separado de Ele. Isso parece ser o que E. G. White quer dizer quando ela relaciona nossa culpa ao pecado e culpa de Adão. Isto é confirmado olhando o contexto da declaração citada acima no texto principal. A citação completa diz: “A herança dos filhos é essa de pecado. O pecado os separou de Deus. Jesus deu sua vida para que Ele pudesse unir os laços rompidos com Deus. Como relacionados ao primeiro Adão, os homens recebem de ele nada mais a não ser culpa e sentença de morte. Mas Cristo caminha e atravessa o terreno onde Adão caiu, enfrentando cada prova em favor do homem. Ele redime a ignominiosa falha e queda de Adão saindo da prova imaculado. Isto coloca o homem em uma posição vantajosa diante de Deus. Isto o coloca onde, devido à aceitação de Cristo como seu Salvador, ele se torna um portador da natureza divina. Assim ele se torna conectado com Deus e com Cristo” (MR, vol. 9, p. 236). Tenho sublinhado as frases chave para indicar que a culpa que compartilhamos ou recebemos de Adão se refere à nossa condição de rebelião e separação de Deus que teriam resultado em nossa morte eterna se elas não fossem assumidas por Jesus. Essa condição de rebelião e alienação de Deus foi o resultado do pecado cometido por Adão. Cf. Gerhard Pfandl, “Some Thoughts on Original Sin,” Shelf Document, Biblical Research Institute GC.SDA Bible Commentary, vol. 1, p. 1085.
Back to referenceIbid., p. 1085.
Back to referencePrimeiros Escritos, p. 126.
Back to referenceManuscript Releases, vol. 11, p. 365.
Back to reference“The Life and Light of Men,” Sign of the Times, June 17, 1897, par. 15.
Back to reference“Seek First the Kingdom of God,” Advent Review and Sabbath Herald, October 27, 1885, par. 4.
Back to referenceSDA Bible Commentary, vol. 7, p. 912.
Back to reference“This Do and Thou Shalt Live,” Signs of the Times, November 24, 1887, par. 12.
Back to referencePara Conhece-Lo, p. 289.
Back to referenceSDA Bible Commentary, vol. 7, p. 912.
Back to referenceA Maravilhosa Graça de Deus, p. 41.
Back to reference“Christ the Propitiation for Our Sins,” Atlantic Union Gleaner, August 19, 1903, par. 1.
Back to referenceMaranata, p. 224.
Back to referenceThe Temptations of Christ in the Wilderness, p. 16.
Back to referenceE. G. White usa apenas uma vez a expressão “pecado original” em seus escritos: “Em grande medida Satanás tem sido bem-sucedido na execução de seus planos. Através do instrumento da influência, tirando vantagem da ação de mente sobre mente, ele foi bem-sucedido em levar Adão a pecar. Desse modo sua própria fonte da natureza humana foi corrompida. E desde então o pecado continuou sua obra odiosa, passando de mente para mente. Cada pecado cometido desperta os ecos do pecado original” (“The Warfare Between Good and Evil,” Advent Review and Herald, April 16, 1901 par. 5).
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