Adoração e Ética: Uma Reflexão Sobre o Salmo 15

Elias Brasil de Souza, PhD

Elias Brasil de Souza, PhD

Director, Biblical Research Institute

Inspirado pelo próprio caráter e natureza de Yahweh, com quem o mal não habitaria, o Salmo 15 estabelece uma relação inextricável entre adoração e conduta e assim realçar importantes características do verdadeiro adorador. Este breve estudo revisa o contexto, estrutura, e mensagem da passagem, e conclui extraindo algumas das implicações do Salmo 15 para os adoradores individuais e a comunidade que adora.

I. Contexto

1. Contexto Literário

O contexto literário do Salmo 15 no livro dos Salmos merece alguma atenção breve. Primeiro, observe sua relação com o Salmo 14. Como observado por comentaristas, o Salmo 14 apresenta uma descrição pungente do ímpio, enquanto que o Salmo 15 introduz em linhas poderosas o perfil da pessoa justa. Segundo, o Salmo 15 tem sido considerado uma parte de uma unidade literária mais ampla formado pelos Salmos 15-24. Existem conexões entres os salmos neste grupo de modo que a unidade maior emerge como significativa editorial e teologicamente. Tais conexões são as seguintes: Salmos 15 ao 24; 16 ao 23; 17 ao 22 e 8 ao 20 e 21. Desse modo o Salmo 15 com o Salmo 24 cobrem toda a unidade literária e, bastante interessantemente, ambos os salmos fazem a pergunta quanto a quem pode habitar na presença de Yahweh (15:1; 24:3). Observando a ausência de salmos penitenciais do Salmo 15 até o 24, Geoffrey Grogan habilmente conclui que “a ênfase nesta seção do Saltério é sobre poiedade.”1

2. Contexto Histórico

Estudiosos têm apresentados várias sugestões para o cenário do Salmo 15. Alguns comentaristas têm apresentados a hipótese que Davi compôs este salmo quando a arca do concerto foi transferida para Sião (2 Sm 6:12ff; 1 Cr 16:1ff) a fim de levar o povo a honrar a Deus com sinceridade.2 Esta parece uma hipótese plausível, mas infelizmente não há evidência textual para apoia-la.

Alguns estudiosos argumentam que o Salmo 15 funcionava como uma liturgia de entrada para o templo de Jerusalém.3 Neste caso, a pergunta de abertura devia ser feita por um peregrino quando se aproximava do templo para comparecer a uma das grandes festas religiosas. Um sacerdote responderia listando as qualidades esperadas do adorador e pronunciando uma bênção. Entretanto, a interpretação deste salmo como uma liturgia de entrada tem sido desafiada sobre a base da forma e conteúdo. Embora liturgias de entrada têm sido atestadas no Oriente Próximo,4 não existe declaração clara dos procedimentos litúrgicos do Templo Israelita.5 Outros eruditos têm modificado a hipótese da liturgia de entrada e chegado a propor a visão do Salmo 15 como instruções litúrgicas ou sacerdotais da torá para aqueles que se aproximavam do monte do templo.6 Não obstante, tão atrativos como estes pontos de vista possam ser em sua intenção explanatória, falta-lhes suporte dos textos Bíblicos.

Desse modo a ocasião precisa para a composição e cenário do Salmo 15 parece ser um ponto de debate. Alguns exegetas, sem negar as conexões cúlticas, tendem a considerar o salmo como uma “peça de ensino de sabedoria”7 usada para instruir a congregação, desde que o foco do salmo de viver de maneira justa pode indicar sua pertinência aos círculos de sabedoria.8 Deve ser observado, entretanto, que embora o Salmo 15 exiba algumas afinidades conceituais com a literatura sapiencial, o salmista desenvolve sua composição contra o pano de fundo de uma estrutura teológica mais ampla. E embora este último ponto de vista tenha muito para recomenda-lo, alguns refinamentos adicionais são necessários. Nesta conjuntura, necessidade de consideração deve ser dada para a subscrição, que reivindica a composição como um “Salmo de Davi” (Mizmor leDavid). O título do poema como um mizmor (canção/salmo) de Davi o define como uma canção, visto que o termo mizmor, costumeiramente traduzido como “salmo,” significa literalmente “uma canção cantada para um acompanhamento instrumental.”9 J. Mays observa que “o cabeçalho do Salmo 15 o identifica como um texto para execução instrumental em reuniões religiosas, e esse é o uso para o qual ele foi colocado com o uma parte do Saltério.”10 Considerando também a reivindicação canônica que Davi compôs muitos salmos e organizou a liturgia do Templo (1 Cr 25), este salmo provavelmente foi composto como um hino para a adoração pública no culto em Jerusalém. Como tal, o Salmo 15 muito provavelmente serviu para “propósitos instrucionais para ensinar a congregação a respeito do caráter de sua relação com o Senhor.”11

3. Estrutura

De um ponto de vista estrutural e literário, o texto é uma obra concisa e bem organizada. Uma questão dupla estabelece o tema do poema, seguida por uma sequência de respostas ou regras de proceder expressas em declarações gerais (vs. 2), acompanhadas por exemplos concretos (vs. 3-4). Uma promessa conclui o salmo assegurando que aqueles cujo estilo de vida concorda com as exigências de Yahweh jamais serão abalados (v. 5).

Alguns estudiosos têm encontrado dez regras de proceder separadas, as quais teriam servido como uma ajuda para a memória – visto que podiam ser contadas nos dedos – e possivelmente faziam alusão ao Decálogo.12 Contudo num escrutínio mais de perto, são encontradas onze regras de proceder que incidentalmente concordam com o ponto de vista do Talmude mantido há muito tempo, de acordo com o qual “Seiscentos e treze mandamentos foram dados a Moisés,” mas “Davi veio e os reduziu a onze” (em referência ao Sl 15)13 P. Craigie identifica uma estrutura decupla, alternando condições positivas e negativas.14 A tabela na página abaixo segue o esboço geral de Craigie de acordo com uma estrutura onzenária e alguns outros ajustes.15

Foram feitas algumas tentativas para identificar uma estrutura mais formal e literariamente precisa no salmo. Entre tais tentativas, uma feita por L. Barré parece mais consistente visto que ela leva em consideração o critério formal e simétrico.16 De acordo com sua proposta, este salmo pode ser organizado do seguinte modo:

A. Condições Positivas (v 2)

B. Condições Negativas (v 3)

(i) caminhando corretamente

(iv) não falsidade

(ii) praticando justice

(v) nenhum mal

(iii) falando a verdade

(vi) nenhuma repreensão

C. Condições Positivas (v 4a-b)

D. Condições Negativas (v 4c-5)

(vii) despreza o réprobo

(ix) não muda depois de jurar

(viii) honra aqueles que temem o Senhor

(x) não cobra usura

(xi) não aceita suborno

  • A. Senhor, quem pode habitar em Seu tabernáculo?
    Quem pode habitar em Seu santo monte?

  • B. Aquele que caminha corretamente,
    Aquele que prática a justiça,
    Aquele que fala a verdade em seu coração;

  • C. Quem não tropeça sobre sua língua,
    Quem não pratica o mal contra seu amigo,
    E não traz opróbrio contra o seu próximo.

  • D. Despreza aos seus olhos o réprobo
    Mas aqueles que temem o SENHOR ele honra

  • C’ Aquele que jura para seu próprio prejuízo e não muda;
    Que não empresta seu dinheiro com usura,
    Que não aceita suborno contra o inocente

  • B’ Aquele que não faz estas coisas

  • A’ Nunca será abalado.

A formula duas questões retóricas por meio de verbos imperfeitos, enquanto que A’ expressa uma promessa com um verbo imperfeito. A correspondência semântica entre A e A’ não pode ser clara à primeira vista, o que faz com que a conexão pareça mais formal do que conceitual. Não obstante à ideia de permanecer e habitar no tabernáculo/monte do Senhor possa estar em correlação com a noção de firmeza comunicada pela frase verbal negativa (lo’ yimot) expressando a ideia de “não abalar, vacilar.” Como Barré observou, “As frases proposicionais em A indicam o lugar de segurança enquanto que uma em A’ qualifica sua duração.”17

B contém três frases parciais introduzindo em termos gerais as virtudes e qualidades de alguém apto para habitar o monte santo. B’ parece ser uma declaração que recomeça apontando de volta para B. Deveria ser observado que B’ contém uma frase parcial formalmente semelhante a essa de B e um pronome demonstrativo plural apontando de volta para os antecedentes mencionados anteriormente. Desse modo um relacionamento formal e semântico entre os dois membros da estrutura quiástica é identificado.

C corresponde a C’ visto que cada membro contem três sentenças negativas. Além disso, as sentenças em ambos os membros são estrutural e semanticamente semelhantes. Tanto C como C’ expressam em declarações negativas o que o verdadeiro adorador não fará contra o seu próximo. Desse modo C define o verdadeiro adorador como alguém que não usa fala imprópria, enquanto que em C’ o verdadeiro adorador não usa o dinheiro como uma arma contra seu companheiro israelita.

De acordo com a estrutura delineada acima, D permanece no ápice da estrutura quiástica. E o elemento ápice pode também ser além disso identificado como um micro quiásma ABB’A’, como observado na ordem Hebraica das cláusulas componentes: “Desprezado aos seus olhos é o réprobo; mas aqueles que temem o SENHOR ele/ela honra.” A admoestação para honrar o piedoso e rejeitar o ímpio funciona como um importante motivo na tradição dos Salmos (veja, e.g, Sl 1) e recebe ênfase especial no Salmo 15.

II. Mensagem

Motivos teológicos das tradições sapiencial, profética e legal são reunidos para apoiarem a pergunta principal sendo exposta pelo salmista: “quem é digno de ser um convidado de Yahweh.” Tal pergunta retóricas traz o tópico da adoração para um foco claro neste breve Salmo. O que caracteriza essencialmente o verdadeiro adorador é primariamente a não conformidade com as minúcias do sistema sacrificial ou outros procedimentos litúrgicos do Tabernáculo/Templo. Sem negar a importância das formalidades da adoração – mas antes pressupondo-as – o salmo levanta algumas questões importantes e cruciais que pertencem à vida interna do adorador, vistas especialmente no relacionamento com o próximo e a comunidade.

Enfatizando os relacionamentos interpessoais apropriados como pré-requisitos fundamentais para comungar com Yahweh, este breve salmo toca o coração da teologia do culto Israelita. Como bem expressado por R. Davidson, a essência de tal teologia de culto, “é a celebração dos feitos maravilhosos de Deus, feitos que são a expressão de um amor divino constante que Israel nunca pode explicar ou merecer (veja Sl 136). Viver na luz deste amor constante é aceitar uma disciplina, a disciplina para demonstrar o mesmo amor constante nos relacionamentos diários com as outras pessoas.”18 E é dentro desta estrutura de culto verdadeiro e genuíno que a teologia do Salmo 15 deve ser entendida. Tal teologia, sem negar o valor da adoração formal, traz ética para o primeiro plano do culto e torna os relacionamentos apropriados com o próximo um pré-requisito para a comunhão com Yahweh.

As três primeiras regras de proceder trazem para o primeiro plano características importantes do verdadeiro adorador, que são teologicamente expressas por meio de três palavras Hebraicas chaves: tamim, tsedek e ’emet. Cada um destes termos é governado por um verbo de ação (caminhar, praticar, falar, respectivamente), que significa que não devem ser considerados como qualidades passivas, mas alguma coisa a ser experimentada na vida diária.

1. “Caminha corretamente”

A primeira declaração caracteriza o adorador ideal como alguém que caminha tamim (“de maneira estritamente perfeita”). De uma raiz significando “ser completo,” tamim em muitas de suas ocorrências se aplica aos sacrifícios. Um animal que não é tamim torna o sacrifício inválido.19 Quando aplicado aos seres humanos o termo possui uma conotação relacional e expressa um relacionamento imperturbado com Yahweh ou com os companheiros humanos.20 Combinado com as palavras para “caminhar” (halak) e “caminho” (derek) tamim enfatiza a ideia de um comportamento consistente e honesto.21 No texto sob estudo o termo parece ser usado primariamente para indicar integridade e honestidade nos relacionamentos interpessoais dentro da esfera humana. Mas deveria ser observado que no final das contas a integridade entre humanos e Yahweh não pode ser separada da integridade entre humanos, visto que a integridade de alguém com Yahweh caminha de mãos dadas com a integridade de alguém para com outros seres humanos, como o próprio Salmo 15 torna claro. Integridade expressa no comportamento correto (tamim) é a característica crucial daqueles que permanecem num relacionamento correto com Yahweh e portanto são aceitáveis a Ele. Esta integridade salutar, expressa por tamim, é predicado de Noé (Gn 6:9), e descreve o que era esperado de Abraão (Gn 17:1) e Israel em seu relacionamento com Yahweh (Dt 18:13; Josh 24:14). Textos sálmicos e de sapienciais fazem uso amplo de tamim não apenas para qualificar o estilo de vida aceito por Yahweh mas também para estabelecer o padrão divino diante dos humanos (Sl 18:24; 37:18; 101:2; Jó 12:4; Pv 2:21; 11:20 etc.).

2. “Pratica a justiça”

Como uma segunda característica, o verdadeiro adorador é descrito como uma pessoa que “pratica a justiça” (tsedeq). A raiz Hebraica subjacente a tsedeq “basicamente conota conformidade a um padrão ético ou moral.”22 Sua ampla extensão semântica inclui implicações relacionais e lida com o comportamento baseado em algum padrão.23 Em termos teológicos, tsedeq (“justiça”) define como Deus trata Seu povo dentro da estrutura do relacionamento de concerto e revela como Deus espera que os humanos tratem um ao outro. Desse modo em termos éticos, tsedeq “envolve a conduta dos homens (sic.) com um outro”24 e estabelece os padrões para os relacionamentos entre humanos. Textos legais, proféticos, e sapienciais usam tsedeq numa variedade de contextos. Tsedeq se refere à honestidade e integridade ao lidar com outra pessoa, especialmente o pobre (Ec 5:7; Jr 22:13; Sl 72:2). Assassinato e rompimento do bem estar da comunidade se iguala a uma avaria da tsedeq (Is 1:21). Procedimentos da corte devem ser baseados na tsedeq, isto é, equidade e conformidade com a lei (Lv 19:15; Dt 1:16, 18; Sl 58:1, 2; Is 32:1; Pv 31:9). No Salmo 15, tsedeq ocorre como objetos direto do verbo pa‘al (praticar, fazer). Como tal, ele se refere a ações concretas de misericórdia e expressões de lealdade que deveriam caracterizar os relacionamentos interpessoais dentro da comunidade/sociedade. Entretanto, sobre as bases de vários usos de tsedeq e palavras relacionadas, tais ações de misericórdia e lealdade devem estar em harmonia com os padrões de Yahweh como revelados em Sua Palavra (Sl 119:132; Is 51:7).25

3. “Fala a verdade em seu coração”

Atitudes internas vêm para a dianteira na terceira declaração: “E fala a verdade em seu coração.” Visto que “coração” (leb) como um termo antropológico pode conotar a atividade da vontade,26 implica que “falar a verdade do coração” significa estar livre de falsidade e falar duplo. Significa falar com sinceridade e transparência, de modo que aquilo que alguém fala é consistente com suas intenções mais íntimas (Sl 12:2; 28:3; Pv 12:17-19; Zc 3:16).

4. “Não tropeça sobre sua língua”

Caracterizando o verdadeiro adorador como alguém “que não tropeça sobre sua língua,” esta maneira de proceder parece refletir a anterior, mas com um exame mais detalhado ela emerge como uma preocupação distinta. A questão aqui não é de fidelidade, como acima, mas o perigo de usar a fala de alguém como uma arma contra outros. Desse modo o convidado de Yahweh “não tropeça sobre sua língua.” Uma imagem muito gráfica é usada aqui pelo salmista. O verbo ragal (tropeçar sobre), parece ser um denominativo de regel (“pé”) e significa difamação ou calúnia.27 Por isso a tradução: “Aquele que não tropeça sobre sua língua.”28 Tão paradoxal como uma imagem possa ser, ela pinta com impressionante talento artístico o contrassenso da difamação e calúnia dentro da comunidade de adoradores. Tais práticas é igual a tropeçar sobre a língua. O perigo do uso impróprio da língua aparece entre outros gêneros literários principais do Velho Testamento, sendo lidados nos textos legais (Lv 15:16), proféticos (Jr 6:28; Ez 22:9), sapienciais e nos salmos (Pv 11:13; 18:8; 20:19; Sl 31:20).

5. “Não comete o mal contra seu amigo”

Uma pessoa que deseja ser um convidado do Senhor não “comete mal contra seu amigo.” Através de um jogo de palavras ra‘ah (mal) e re‘ehu (amigo) o salmista embeleza a retórica do Salmo 15. A palavra ra’ah em si mesma tem um amplo significado e poderia significar desastre ou algum outro dano infligido sobre outra pessoa. Entretanto, esta declaração deveria ser entendida em conexão com a próxima linha que menciona a repreensão contra o próximo.29 Além disso, estruturalmente, esta linha poética também permanece em paralelismo com a linha anterior formando um tricolon. Desse modo “mal” neste contexto significa o mal uso da fala no relacionamento com amigos e próximos. Este mal contamina toda a sociedade e o povo de Deus não está imune às suas consequências devastadoras. A sabedoria admoesta alguém a não planejar o mal contra o próximo (Pv 3:29) e torna claras as conexões perigosas entre tal mal e o uso impróprio da língua (Jó 20:12; Pv 15:28; 16:27; cf. Sl 50:19).

6. “Não traz opróbrio contra o seu próximo”

O verdadeiro adorador “não traz opróbrio contra o seu próximo.” A palavra Hebraica por trás de “opróbrio” é herpah, que combinada com nasa’ significa “levar, tomar, trazer vergonha/opróbrio.” Ela costumeiramente descreve uma situação na qual um indivíduo ou a comunidade tem que suportar a vergonha por alguma ação cometida indevidamente ou por causa de alguma desgraça infligida sobre eles por outros (veja, e.g.: Jr 31:19; Ez 36:15). No presente salmo a declaração lê que o convidado de Yahweh “não traz opróbrio contra o seu próximo.” A declaração não é uma admoestação contra a difamação, um ponto já estabelecido na maneira de proceder anterior, mas parece requerer que o verdadeiro adorador “não” deveria trazer opróbrio contra o seu próximo” não zombando de ele/ela ou molestando-o/a.30

7. “O desprezo é condenável aos seus olhos”

Esta declaração e a próxima formam o ápice da estrutura literária deste salmo. O verdadeiro adorador evita associações com pessoas más: “Despreza aos seus olhos o réprobo” (15:4a). A palavra “réprobo” traduz nim’as, que é uma forma passiva da raiz verbal que significa “rejeitar.” Este termo é frequentemente usado para definir aqueles que rejeitam Yahweh ou Sua lei (1 Sm 5:23; Is 30:12) e consequentemente eles também são “rejeitados” (nim’as) por Yahweh (Sl 53:5; 89:38). Desse modo os réprobos são uma categoria de pessoas definidas teologicamente. Eles são aqueles maus que foram rejeitados pelo Senhor por causa de seus caminhos ímpios. Portanto, tais pessoas devem ser rejeitadas (nim’as) pelo verdadeiro adorador. Assim o salmo ecoa um tema recorrente de sabedoria, que adverte os seguidores de Deus a não se associarem com pessoas más e desprezíveis. A importância de tal conceito já é clara na abertura do Saltério, onde a pessoa bem-aventurada é descrita como alguém “que não caminha no conselho do ímpio, nem se coloca no caminho dos pecadores, nem se assenta no assento dos escarnecedores” (Sl 1:1; veja também Sl 26:4, 5; 31:6; 139:21; Jr 15:17).

8. “Aqueles que temem o Senhor Ele honra”

Como uma contraparte lógica da injunção anterior, vem a afirmação que aquele que entra na presença de Deus honra aqueles que temem o Senhor. Deve ser mantido em mente que existem duas categorias de pessoas que aparecem por todo o Saltério: o justo (tsadiqim) e o ímpio (resha‘im), como descritos no primeiro salmo. E um ponto constantemente estabelecido é que não é suficiente ficar afastado do primeiro, mas é igualmente importante estar em relacionamento e conceder honra ao segundo (Sl 16:3; 101:6; 119:63). Além disso, honrar aqueles que “temem o Senhor” e desfrutar sua companhia reforça atitudes corretas e bons hábitos.

9. “Jura para seu próprio dano e não muda”

Uma injunção para manter os juramentos agora se torna parte da lista: “Aquele que jura para seu próprio prejuízo e não muda.” O texto Hebraico apresenta algumas mudanças na gramática e vocalização, mas ainda é preferível seguir o Texto Massorético e interpretar a cláusula no sentido de jurar de “jurar para o próprio prejuízo de alguém.”31 Para alguém manter a promessa e palavra mesmo quando elas impõem injúria ou perda financeira se torna um importante preparo para aqueles que se introduzem na presença de Yahweh. Outras passagens também enfatizam a importância de manter os juramentos e votos (Lv 5:4; Nm 30:2; Dt 23:21-23; Ec 5:4-5).

10. “Não empresta seu dinheiro com usura”

As duas últimas declarações lidam com a atitude de alguém com respeito ao dinheiro. Desse modo o adorador ideal “não empresta seu dinheiro com usura.” Tem sido estimado que nas sociedades contemporâneos as taxas de juros podiam ser tão elevadas como cinquenta por cento ao ano.32 Assim não era incomum os devedores eventualmente se tornarem escravos. Desse modo emprestar dinheiro ou bens a juros para um companheiro Israelita era estritamente proibido pela lei Hebraica. A base lógica é que alguém não deveria tirar vantagem de uma pessoa na pobreza para receber lucro. Tal manobra financeira, que era largamente praticada no Oriente Próximo, devia ser evitada pelos Israelitas (cf. Ex 22:25; Lv 25:35–38; Dt 23:19–20). O amor fraternal expresso na disposição para ajudar aqueles que estavam em necessidade permanece como um pré-requisito para aqueles que entram na presença de Yahweh em adoração.

11. “Não recebe suborno contra o inocente”

Mantendo o foco sobre assuntos financeiros, a última injunção afirma que a pessoa que está procurando a presença de Yahweh “não aceita suborno contra o inocente.” A Bíblia admoesta contra aceitar dinheiro para perverter o direito do inocente e assim favorecer a parte ímpia numa disputa legal (Ex 23:6; Dt 16:19; 27:25). O suborno perverte a justiça, destrói relacionamentos, e corroe o próprio fundamento da comunidade. Entretanto, tão específica como esta injunção possa parecer com respeito ao dinheiro, ela transcende questões financeiras visto que ela revela a lealdade e devoção últimas do adorador.

Salmo 15 conclui com uma declaração resumida: “aquele que não faz estas coisas nunca será abalado.” A primeira parte se refere às declarações gerais do v. 2 e por extensão às qualificações mais específicas requeridas do verdadeiro adorador. E a última frase “nunca será abalado” funciona como um ponto inclusivo apontado para as perguntas da abertura: “Quem permanecerá/habitará?” Neste mesmo final, o salmo promete que aqueles que vivem uma vida de integridade se torna inabalável e inamovível como o Monte Sião (Sl 125:1). O que o Monte Sião é no princípio, o adorador se torna no final.

Resumindo, teologicamente o Salmo 15 testifica a inseparável conexão entre “templo e conduta, adoração e vida, lugar santo e pessoa justa.”33 Em fazendo assim, este Salmo ressoa com outros textos bíblicos aonde a adoração transcende a formalidade, e se aproxima de Deus indo além do ritual34 (e.g.: Sl 24; Is 33:14–16; Os 6:6).

Conclusão

Pode ser de qualquer maneira surpreendente que um salmo devotado ao adorador possa estar tão interessado em questões éticas afetando os relacionamentos social e comunal e virtualmente interessado nos procedimentos formais do ritual templo/santuário. Em fazendo assim, entretanto, o Salmo 15 não nega a importância do ritual e da liturgia, mas traz o foco sobre uma área que corre o risco de ser negligenciada. O povo de Deus desde os tempos passados tem sido tentado a separar a espiritualidade da vida diária, e a adoração dos relacionamentos social e comunal. Este Salmo nos faz lembrar que Deus está tão interessado na maneira como tratamos os outros como Ele está em nosso culto de adoração formal. De uma perspectiva bíblica, a adoração é expressa na liturgia e conduta, doutrina e obediência. Desse modo uma experiência de adoração verdadeira nos coloca em relacionamento com Deus tanto no culto como na vida. A adoração verdadeira significa oferecer a nós mesmo como “sacrifícios vivos” expresso numa vida de obediência. E tal obediência revela seu verdadeiro caráter na maneira como nos relacionamos com os outros.

Deus não espera apenas o melhor culto de adoração formal que podemos Lhe oferecer, mas Ele também espera ser louvado pela vida que vivemos fora do edifício da igreja. Nossas vidas diárias possui um profundo significado cultural visto que elas definem a qualidade da oferta que trazemos a Deus. E isto não é teologia legalística. Não é um quid pro quo. Tal teologia tão profunda e concisamente expressa no Salmo 15 deve ser entendida dentro da estrutura do culto santuário/templo, onde a expiação era concedida através do sistema sacrificial. O salmo nos convida a reconhecermos nossas limitações, incapacidades, e falhas. Quando assim fazemos, pleiteamos pelo perdão e cura de Deus de modo que Ele nos tornará aptos para Lhe oferecer a espécie de vida e relacionamentos que ele espera de nós. Finalmente o Salmo 15 não é uma prescrição para o acesso à presença de Deus, mas uma descrição daqueles que estão vivendo dentro dos limites da graça do concerto de Deus. Mas quando experimentamos genuinamente a experiência da presença de Deus no lugar de adoração, refletimos como um espelho Deus em outros lugares. E não deveríamos esquecer que para chegar seguramente no Salmo 150 precisamos fazer uma parade no Salmo 15.


  1. Geoffrey W. Grogan, Psalms, The Two Horizons Old Testament Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 2008), 61.

    Back to reference
  2. E. W. Hengstenberg, Commentary on the Psalms, 3 vols (Hengstenberg, E. W. Commentary on the Psalms, Edinburgh: T&T Clark, 1869), 1:20); H. C. Leupold, Exposition of the Psalms, H. C. Leupold Commentary Collection (Grand Rapids: Baker, 1959), 142.

    Back to reference
  3. E.g., John Day afirma confiantemente que “o Salmo 15 é apenas um salmo que em sua totalidade pode ser dito que constitui uma liturgia de entrada. A mesma estrutura deve ser encontrada no Sl 24:3–6 e, por meio de imitação profética, em Is 33:14–16” (John Day, Psalms [London: T&T Clark, 1999], 60). Veja também Claus Westerman, The Psalms: Structure, Content and Message (Augsburg: Minneapolis, 1980), 103; Cas J. A. Vos, “Theopoetical and Liturgical Patterns of the Psalms in Psalms and Liturgy, ed. Dirk J. Human and Cas J. A. Vos, Journal for the Study of the Old Testament Supplement Series 410 (London: T. & T. Clark International, 2004), 253.

    Back to reference
  4. Garcia de la Fuente, O. “Liturgias de entrada, normas de asilo o exhortaciones proféticas: A propósito de los Salmos 15 y 24,” Augustinianum 9, (1969): 266–298.

    Back to reference
  5. 5 Um argumento colocado contra tal interpretação é a ausência total de requerimentos rituais e físicos da lista de qualidades mencionadas no Salmo 15. As características do adorador ideal enfatizadas neste salmo são pessoais e éticas, o que torna difícil para o sacerdote ou funcionários cúltico avaliar um indivíduo sobre tais bases. Apenas o adorador poderia saber se essas condições têm sido satisfeitas (Ronald E. Clements, “Worship And Ethics: A Re- Examination of Psalm 15” em Worship and the Hebrew Bible: Essays in Honour of John T. Willis, ed. Matt Patrick Graham, Rick R. Marrs, and Steven L. 8 McKenzie, Journal for the Study of the Old Testament Supplement Series 284 (Sheffield: Sheffield Academic Press, 1999), 83. Em adição, deve ser observado que o adorador dirige as questões diretamente a Yahweh, que, como Gerstenberger tem observado “é incomum quando comparada com petições não especificadas em textos relacionados (Sl 24:3; Is 33:14c–d; Mq 6:6–7)” (Erhard Gerstenberger, Psalms Part 1: With an Introduction to Cultic Poetry. The Forms of the Old Testament Literature 14 [Grand Rapids: Eerdmans, 1988], 15).

    Back to reference
  6. Hans-Joachim Kraus, A Continental Commentary: Psalms 1–59 (Minneapolis, MN: Fortress Press, 1993), 227. Veja também Gerald H. Wilson, Psalms, The NIV Application Commentary, 2 vols. (Grand Rapids: Zondervan, 2002), 1:296.

    Back to reference
  7. Robert Davidson, The Vitality of Worship: A Commentary on the Book of Psalms (Grand Rapids, Eerdmans, 1998), 56.

    Back to reference
  8. Willem VanGemeren, “Psalms,” The Expositor’s Bible Commentary (Grand Rapids: Zondervan, 1991), 5:148.

    Back to reference
  9. Ludwig Koehler, Walter Baumgartner, M. E. J. Richardson and Johann Jakob Stamm, The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (Leiden: Brill, 1999), s.v. “ִמְזֹמור.”

    Back to reference
  10. James Luther Mays, Psalms (Louisville, KY: John Knox, 1994), 85.

    Back to reference
  11. Ibid, 85; John Goldingay, Psalms, Baker Commentary on the Old Testament Wisdom and Psalms, 3 vols. (Grand Rapids: Baker Academic, 2006), 1:219.

    Back to reference
  12. George A. F. Knight, Psalms: Volume 1, The Daily Study Bible series (Louisville: Westminster John Knox Press, 2001), 70- 71; Robert Davidson, The Vitality of Worship: A Commentary on the Book of Psalms (Grand Rapids: 1988), 56; Charles A. Briggs and Emilie Grace Briggs, A Critical and Exegetical Commentary on the Book of Psalms, International Critical Commentary (New York: C. Scribner’s Sons, 1906-07), 112.

    Back to reference
  13. Jacob Neusner, ed., The Babylonian Talmud: A Translation and Commentary (Peabody, MA: Hendrickson Publishers, 2011), Tractate Makkot 3:15-16.

    Back to reference
  14. Peter C. Craigie, Psalms 1-50, Word Biblical Commentary 19 (Dallas: Word, 2002), 150.

    Back to reference
  15. Craigie mistura 7 e 8 numa condição e considera v 4c como uma condição positiva devido à sua interpretação do texto Hebraico subjacente. Craigie, 150.

    Back to reference
  16. Lloyd M. Barré, “Recovering the Literary Structure of Psalm 15,” Vetus Testamentum 34, no. 2 (1984): 207-211.

    Back to reference
  17. Davidson, 57. Ênfase suprida.

    Back to reference
  18. Ernst Jenni and Claus Westermann, Theological Lexicon of the Old Testament (Peabody, MA: Hendrickson Publishers, 1997), s.v. תמם.

    Back to reference
  19. R. Laird Harris, Robert Laird Harris, Gleason Leonard Archer and Bruce K. Waltke, Theological Wordbook of the Old Testament (Chicago: Moody Press, 1999), 752, s.v. ֵדק ָצ (ṣādēq) ser justo, justo.”

    Back to reference
  20. David J. Reimer, “ַדק ָצ (ṣādaq)” in New International Dictionary of Old Testament Theology & Exegesis, ed. W. A. VanGemeren (Grand Rapids: Zondervan, 1998), 3:746.

    Back to reference
  21. Hans Walter Wolff, Anthropology of the Old Testament, traduzido por Margaret Kohl (London: S.C.M. Press, 1974), 51.

    Back to reference
  22. William L. Holladay, A Concise Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament. (Leiden: Brill, 1971), 332, s.v. .רגל

    Back to reference
  23. Assim Mitchell Dahood, Psalms I: 1-50: Introduction, Translation, and Notes (New Haven; London: Yale University Press, 2008), 84.

    Back to reference
  24. Gerald H. Wilson, Psalms, 2 vols., The NIV Application Commentary (Grand Rapids: Zondervan, 2002), 1:299.

    Back to reference
  25. Barnes interpreta esta injunção no sentido de não dar crédito acusações levantadas por outros contra o próximo (Albert Barnes, Notes on the Old Testament: Psalms, Volume 1 [London: Blackie & Son, 1870-1872], 121).

    Back to reference
  26. O texto Hebraico tem sido traduzido de várias maneiras como “não cometer erro” (Dahood, 83; Craigie, 149), “ao seu próximo” (LXX) e “para [seu próprio] prejuizo” ou ideia semelhante (NKJV, ESV, NASB, NIV). Desde que o contexto é um voto, a última opção parece mais provável, desde que o cumprimento de um voto algumas vezes podia exigir alguma perda pessoal.

    Back to reference
  27. Robert G. Bratcher e William David Reyburn, A Translator’s Handbook on the Book of Psalms, Helps for translators (New York: United Bible Societies, 1991), 137.

    Back to reference
  28. S. Edward Tesh and Walter D. Zorn, Psalms, The College Press NIV Commentary (Joplin, MO: College Press, 1999), 163.

    Back to reference