Jean R. Zurcher
A filosofia existencialista mantém hoje um lugar importante, quase irresistível, em nossa sociedade. Além disso, existe o sentimento que ele está destinado a exercer num futuro próximo uma influência cada vez mais profunda sobre o pensamento e a conduta das massas dos nossos semelhantes, assim como sobre a filosofia, literatura, ou teologia. Alguns se alegram com isto, e outros o deploram. A fim de formar uma opinião objetiva sobre o assunto, é necessário fazer um exame minucioso de ele. Abordaremos o problema primeiro tentando definir a filosofia existencialista negativamente, isto é, explicando o que ela não é. Então seremos capazes de explicar precisamente seus alvos, e finalmente tocaremos um pouco em seus inquestionáveis valores espirituais.
I. O Que a Filosofia Existencialista não é
Para estar apto para julgar a filosofia existencialista em seu verdadeiro valor, pelo menos cinco erros devem ser evitados.
1. Existencialismo, Moda ou as Excentricidades de Nosso Tempo
O primeiro, o erro mais imaturo e mais comum, consiste em julgar a filosofia simplesmente de acordo com as aparências, de acordo com certas excentricidades mundanas que não possuem nenhum laço filosófico com o existencialismo autêntico. De fato, é fácil se lembrar da moda lançada por um certo seguimento de jovens estudantes que frequentavam os cafés Parisienses e se auto intitulavam existencialistas simplesmente porque eles pairavam ao redor de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. O existencialismo que estava na moda era então a extrema insensatez do século, e se ele contribuía para tornar conhecido ao público o nome da mais recente filosofia era verdadeiramente pela maior parte prejudicial para a própria filosofia existencialista. Pois, um existencialismo adotado porque é falado sobre ele na cidade pode não ser nada mais que uma caricatura do existencialismo verdadeiro.
2. Literatura Existencialista, ou o Triunfo do Desespero
Não seria sábio fazer uma avaliação geral do existencialismo, como uma filosofia, de acordo com a tendência literária que reivindica este título. Pois quando ela deixa a sociedade dos filósofos para se iniciar no mundo governado pelo novel, o pensamento existencialista se encontra profundamente alterado. Sem negar a qualidade de alguns destes autores, ainda devemos reconhecer que esta tendência literária, se torna angústia, insensatez, e inutilidade para a urdidura e textura da existência, retendo apenas a faceta puramente negativa da filosofia existencialista; e esta é uma declaração generosa. Quanto a um julgamento total desta literatura, isto é o que um competente crítico disse:
No topo da concepção trágica de nossa era tem proliferado uma literatura obscura e obscena, na qual a verdade filosófica é sistematicamente buscada no nível do abominável, no qual um reconhecimento lúcido da desordem tem se tornado uma declaração do mal, desespero para dentro da violência, embriaguez sensual para dentro de uma loucura erótica, e frequentemente, desgosto com a vida para a obsessão pelo suicídio.1
Ora, precisamente nada tem feito mais para aumentar o prestígio do que é crido ser o existencialismo do que esta eclosão dos novéis; nada feito mais para assegurar seu triunfo do que esta literatura do desespero. Obviamente não é necessário explicar por que não estamos lidando com este tipo de existencialismo neste ensaio.
3. O Existencialismo de Sartre, ou a Filosofia do Absurdo
Um terceiro erro amplamente espalhando é esse de avaliar de modo geral o existencialismo de acordo com a nossa opinião pessoal de seus representantes individuais. E quando o existencialismo não é julgado de acordo com as excentricidades da moda ou da literatura, muitas pessoas imediatamente pensam em Jean Paul Sartre. Ele parece ser o melhor representante do existencialismo de hoje; primeiro, porque ele passou pelas dores de representar seu pensamento num sistema de doutrinas; em segundo lugar, porque ele sabia como propagar suas ideias do lado de fora dos círculos filosóficos, usando os métodos de propaganda mais eficientes: criticismo literário, estórias curtas, novelas e teatro, e assim se tornar a fonte de inspiração para as tendências literárias mais populares. Entretanto, para ser honesto, temos que admitir que exceto a popularidade esperada e o tumulto daquilo que estava na moda, o existencialismo autêntico não deve nada a Jean-Paul Sartre. Não é nossa mínima intenção excluir Sartre do existencialismo, “porque a ferida de sua influência mundial é culpa de reivindicar fraudulosamente uma identidade.”2 Mas é lógico que o pesquisador sério deve se colocar objetivamente em guarda contra a tendência amplamente espalhada para reduzir quase automaticamente a filosofia em questão “a esta mistura de existencialismo e inexistencialismo que o torna Sartrismo.”3 Não apenas o último não é uma expressão fiel do pensamento existencialista, mas antes uma consequência, ou como Emmanuel Monnier coloca tão bem, “o último cala boca de uma das tradições existencialistas, tradição que se originou com Heidegger e que formou uma oposição radical aos fundadores da filosofia moderna da existência.”4
4. Filosofia Existencialista ou uma Nova Maneira de Filosofar
Um quarto erro que é frequentemente cometido por aqueles que condenam o existencialismo, é ele estar totalmente correto ou totalmente errado. Podemos dar-lhe as boas-vindas ou deplora-lo, mas não podemos negar que esta filosofia representa o modo literário, filosófico, e teológico mais moderno de pensar, e é ao mesmo tempo a expressão mais autêntica, realística, e ocasionalmente a mais desumana da era em que vivemos. Tentar ignorar este fato é um dos erros mais sérios que pode vir de alguém que está tentando precisamente obter uma audição dos homens deste século. Falar a linguagem de seus contemporâneos, usar o vocabulário das pessoas de seu tempo, prover respostas para as preocupações filosóficas de seu século: estas são algumas das características da pregação do grande apóstolo Paulo. Porém, temos aqui mais do que uma questão de método. Um estudo mais profundo do existencialismo é muito necessário, visto que suas origens devem ser encontradas no pensamento Cristão e visto que, em certos casos, seus representantes reivindicam ser a testemunha mais fiel do Cristianismo.
5. Existencialismo ou Outra Maneira de Falar Sobre Cristianismo
Existe uma confusão deplorável precisamente entre o existencialismo e o pensamento Cristão que devemos fazer o nosso melhor para não fomentar. Quanto mais alguém for capaz de avaliar corretamente quanto o pensamento teológico contemporâneo deve ao existencialismo, mais fácil é cometer esse erro. Entretanto, seria um sério equívoco não ver que a identidade é essencialmente válida em relação à forma de pensamento e existe frequentemente uma distinção radical no significado fundamental. Ninguém dúvida das origens Cristãs do existencialismo, e que Kierkegaard estava perfeitamente certo em apresentar a verdade Cristã como o modelo da verdade existencial. Porém, isto é razão suficiente para concluir que o existencialismo é apenas outra maneira de falar do Cristianismo?
Esta certamente era a primeira intenção do pai do existencialismo. Conhecemos os sofrimentos que Kierkegaard enfrentou tentando restabelecer o espírito do Cristianismo autêntico. Visto que ele sentiu que, sob a influência dos grandes filósofos Protestantes tais como Kant e Hegel, o espírito da Reforma tinha sido coberto pela tendência racionalista que era a corrente filosófica e pensamento teológico que o estava varrendo em seu rastro. Desejoso de seguir a obra de Lutero, Kierkegaard reagiu contra esta alteração do espírito da Reforma e retornando ao pensamento original do Cristianismo, ele esperava hastear a bandeira para uma nova Reforma.
Mas ó, o existencialismo não é limitado ao pensamento de Soren Kierkegaard, nem à expressão puramente Cristã de seu pensamento. Outros ramos têm brotado do tronco comum, e mesmo que mantivéssemos o ramo alimentado pela seiva Cristã, ainda teríamos que admitir que ele não brotou dos Cristãos que estão seguros e calmos em seu edifício doutrinário. Se o existencialismo fosse a expressão autêntica do pensamento Cristão, teríamos tal cor peculiarmente Protestante com Kierkegaard, Católica com Gabriel Mercel, Ortodoxa com Berdyaev e Judaica com Buber?
Temos dito o suficiente, pressentimos, sobre a necessidade de uma infinita quantidade de cautela a fim de fazermos uma avaliação objetiva da filosofia existencialista. Seria injusto tomar uma decisão baseada nas aparências, ou julga-lo apenas do ponto de vista do seu lado negativo explorado por um ramo da literatura. Seria igualmente triste fomentar preconceitos contra ele baseado num caso em particular, ou condenar todo o sistema em massa sem nem mesmo assumir o incômodo para examina-lo antecipadamente. Porém o erro mais sutil, até onde podemos ver, seria não discernir os limites entre o pensamento existencialista e o pensamento Cristão com o pretexto que o primeiro se originou no último, ou simplesmente porque do começo ao fim de todas as variações do pensamento existencialista, uma forma de pensamento eminentemente Cristã deve ser encontrada.
II. Alvos Do Existencialismo
Tão precária quanto a conexão entre as diferentes tradições existencialistas possam ser, todavia elas têm em comum uma certa maneira de expor problemas, uma certa solidez nos assuntos que elas escolhem, uma certa busca por alvos comuns que nos permitem falar de elas de um ponto de vista global.
1. O Homem Como Um Indivíduo
E desse modo, em termos muito gerais, podemos caracterizar a filosofia existencialista –
como uma reação da filosofia do homem contra o excesso da filosofia das ideias ou da filosofia das coisas. Nele, não é tanto a existência em toda a sua extensão, mas antes a existência do homem que é o primeiro problema da filosofia. Ele acusa a filosofia tradicional de tê-lo muito frequentemente apreciado mal, para se voltar para a filosofia do mundo ou dos produtos da mente.5
A filosofia moderna tem sido um humanismo, que é uma filosofia do homem, mas do homem de uma maneira geral, o homem como um ser dotado de razão. Em vez do homem, ele tinha considerado a razão humana. Ora, o mérito dos filósofos existencialistas era precisamente lembrar o humanismo da existência do homem. Completamente contra o racionalismo de Hegel, completamente contra a ideia que o objeto da filosofia é a razão em sua universalidade, Kierkegaard foi o primeiro a se opor àquilo que ele próprio chamou de filosofia existencial, isto é, uma filosofia que considera acima de tudo o indivíduo, o indivíduo humano individual em sua vida tangível, não reconhecendo o individual, o objeto do pensamento, mas o indivíduo existente, com seu sofrimento, sua angústia e sua paixão. Porque existir, como ele diz, é acima de tudo ser um indivíduo. O que é essencial, não é portanto um princípio geral, a Razão universal, a Humanidade ou o Homem com um capital, ou até mesmo a natureza humana naquilo que ela tem em comum com todos os indivíduos, mas o homem tangível, o indivíduo humano. Por esta razão, Berdyaev foi capaz de afirmar:
A filosofia existencialista é uma filosofia personalística: o objeto do conhecimento é a pessoa humana.6
2. Prioridade da Existência
Mas se ele for antes de tudo uma reversão ao homem e até mesmo ao homem tangível, o existencialismo é mais do que apenas isso. O que é interessante no homem, o que forma o objeto principal de sua pesquisa, é a existência. Desde os seus próprios inícios, o existencialismo foi caracterizado por sua tendência para acentuar aquilo que existe, ou ainda melhor, a existência daquilo que existe. Não é o ser individual que deve ser atingido, mas preferivelmente sua existência. Apenas esta existência prove o ser verdadeiro. Todo objeto é primeiro um objeto existente. A existência é o que atualiza a essência do homem. Nossas palavras provam isto. Quando dizemos: “Eu sou um homem,” o “Eu sou” afirma a existência; “homem” designa a essência. No homem, portanto, a existência precede a essência e esta afirmação, com suas variações compõe a tese fundamental de todos os existencialistas.
Antes da chegada do existencialismo, a filosofia sempre tinha julgado que a essência de uma coisa era anterior à sua existência. Consequentemente era ensinado que o homem individual era derivado do conceito de homem, o qual é encontrado na inteligência divina, ou simplesmente o que compõe a natureza humana, da qual todo homem é um exemplo. Porém uma vez mais o existencialismo desnorteia a relação estabelecida entre a essência e a existência pela filosofia. Existe pelo menos um ser cuja existência precede sua essência, um ser que existe antes de ser apto para ser definido por algum conceito: Este ser é o homem. O homem existe antes de tudo, ele aparece no mundo, e somente depois ele pode ser definido. O homem é antes de tudo coisa nenhuma; ele será depois de ser nada, e ele será aquilo que fez de si próprio. Este é o princípio básico da nova filosofia.
3. A Existência Está na Interioridade
Mas o que deve ser entendido por “existência?” A resposta não é fácil, pois a menos que entendamos o homem existente, a existência sempre será uma pura abstração. No vocabulário existencialista, existir não é um sinônimo de ser. Ser designa um estado, enquanto que existir designa um ato. A existência é o próprio ato pelo qual a passagem da possibilidade para a realidade é realizada. Ora, é somente o homem quem pode executar este ato, porque somente ele, no mundo de nossa experiência, é livre, e também porque somente ele é um objeto consciente. A natureza é, porém não existe por um ato mental do objeto que pensa e faz existir. Entendendo a si mesmo na consciência do eu, o objeto entende a si mesmo existindo, ele entende sua própria existência. Isso é porque todo objeto é um objeto existente; a existência é o próprio objeto em sua interioridade. Para os filósofos existencialistas, a única objetividade verdadeira é portanto sua própria subjetividade, porque é nas profundezas de si mesmos, em sua interioridade, que eles descobrem a única realidade verdadeira, a existência. Existir é a sua principal preocupação, a existência seu interesse supremo.
4. O Homem e Sua Formação
A existência é portanto composta da interioridade; ela é o ato pelo qual o objeto compõe a si mesmo e forma sua própria essência. Contudo, este ato pressupõe liberdade. Somente aquele que escolhe livremente por si mesmo existe autenticamente; somente aquele que compõe a si mesmo de acordo com a imagem da pessoa que ele deseja ser. E consequentemente a escolha nunca é de uma vez por todas: alguém não pode se ancorar na existência como estando numa posição que foi adquirida de uma vez por todas. Aquele que está existindo e que se estabiliza na categoria em que ele desejava se tornar se transforma num objeto e por esse mesmo ato deixa de existir. Ora, a existência é aquilo que nunca se torna um objeto. Somente podemos falar de ela em termos de saltar para fora. Ela é a aparência exterior consequente daquilo que o objeto pensa e faz. Em resumo, a existência é o homem em seu tornar-se, em seu esforço incessante para sobrepujar aquilo que ele é. Consequentemente, o existencialismo coloca sobre os ombros do homem não apenas a inteira responsabilidade por aquilo que ele é, visto que ele é o que faz de si mesmo, mas também por seu próprio destino.
5. A Concepção Dramática do Destino do Homem
Esta responsabilidade explica, por um lado, a importância harmonizada com o problema da liberdade por todos os filósofos existencialistas, bem como explica, por outro lado, a concepção singularmente dramática da existência humana que caracteriza todos eles. De fato, com o próprio sentimento vívido que ele tem de compor-se, o pensador existencialista não pode permanecer no nível da especulação abstrata e teórica: ele vive seu pensamento, ele é o último que o engaja diretamente, ele pode apenas tomar sobre si as diferentes situações de sua existência. Um exemplo: Sócrates de quem Kierkegaard faz um modelo do pensador existencial. Ele chegou à conclusão sobre a imortalidade através de um dispositivo, mas a este dispositivo ele entrega sua vida, assumindo a morte com toda liberdade. Isto é viver autenticamente. Mas para fora desta obrigação flui da vida, por diferentes razões, a angústia que é tão característica de todos os existencialistas bem como seu entendimento basicamente trágico do destino do homem.
Isso é, resumidamente, o que os representantes da filosofia existencial têm em comum. É verdade que a respeito de cada um dos vários pontos deste objetivo comum, as opiniões são infinitamente variadas. Não podemos revisar cada um dos diferentes aspectos para tentar pegar um aqui, outro ali. Nosso julgamento pode apenas ser geral e tocar uma forma de pensamento que todos os filósofos existencialistas têm em comum, em vez de todos os seus diferentes sistemas completamente. Além do mais, o valor essencial do existencialismo para nós deve ser encontrado neste julgamento geral.
III. Valores Espirituais Do Existencialismo
Não podemos discutir aqui o valor do existencialismo como um todo, nem mesmo tomar algumas das críticas mais justificadas que são comumente feitas a respeito de ele. Nenhum sistema particular pode ser aceito sem reservas, e alguns de eles – e isto inclui os mais amplamente conhecidos, aqueles de Heidegger e Sartre – são afetados com uma falha básica. Estes, porém, estão na essência do pensamento existencial, são verdades de importância capital que vêm diretamente do Cristianismo. Um dos méritos dos filósofos existencialistas é precisamente os terem trazido para a vanguarda, e ao fazerem isto, trouxeram a teologia contemporânea a um entendimento melhor do pensamento Bíblico, particularmente na área da antropologia Cristã.
1. O Conhecimento do Homem Como Um Indivíduo
E consequentemente o principal valor do existencialismo para nós é encontrado no próprio objeto de seu estudo mais importante e na maneira em que este estudo foi conduzido: o homem, o homem como um ser tangível, o indivíduo existente, o individual, a personalidade humana. A Bíblia não reconhece nenhum outro além deste. Nela não existe conhecimento do homem como tal. Os escritores sagrados eram totalmente ignorantes a respeito de um conhecimento abstrato, teórico da natureza humana, o produto das especulações filosóficas. Sua representação do homem é excitantemente realística, e é sempre o esboço da vida real dos tipos de homens cujos nomes conhecemos. Esta é uma verdade tão essencial que a imagem ideal, a estatura perfeita do homem, está na vida encarnada de Jesus Cristo, a qual significa que a definição da concepção do homem, de acordo com a Bíblia, pode ser baseada apenas na realidade viva de indivíduos existentes.
A filosofia existencialista tem mostrado uma notável perspicácia ao explorar seu próprio uso desta verdade Bíblica fundamental. E desse modo ele nos apresenta uma representação do homem radicalmente diferente daquela da filosofia clássica, e como resultado todos da teologia Cristã, tem nos saudado. Através desta observação dos homens, os filósofos existencialistas nos conduziram a uma antropologia notavelmente semelhante àquela da Bíblia a qual também está em harmonia com uma observação realística dos fatos. Consideramos que este resultado seja o principal e mais importante mérito do existencialismo.
2. Pensamento Bíblico Basicamente Existencial
A preeminência da existência é sem sombra de dúvida outra noção Bíblica acrescentada pela filosofia existencialista. É afirmada na primeira menção da Bíblia sobre o homem, quando o autor de Gênesis define o homem como “uma alma vivente.” O drama do homem, do qual a Bíblia está repleta de Gênesis a Apocalipse, não é nada menos que um drama existencial. Tudo, absolutamente tudo, se concentra num problema de existência. O próprio Deus apresenta Sua auto definição como Aquele que Existe por excelência: O Eterno. Ele chama a si mesmo de “Eu Sou o que Sou.” Em oposição aos ídolos Ele também é chamado de “o Deus vivo.” A encarnação da Palavra é, no mais elevado grau, uma demonstração da base existencial do Cristianismo. Para a salvação do homem, Ele foi feito “espírito doador de vida.” Cristo não somente Se apresentou como “Aquele que vive,” “o Príncipe da vida,” mas como sendo a própria vida.
A característica existencial também é encontrada na verdade Bíblica. Ela se assemelha não à última especulação abstrata da filosofia ou mesmo à teologia tradicional. A verdade Bíblica apenas faz sentido na extensão na qual ela é vivida. O próprio Cristo deu o exemplo: “Em conformidade com o que Ele ensinava, vivia… Assim, em Sua vida, as palavras de Cristo tiveram perfeita ilustração e apoio. E mais do que isto: Ele era aquilo que ensinava… Não somente ensinava Ele a verdade, mas era a verdade” (Educação, p. 78, 79). O mesmo princípio é válido para Seus discípulos: “Somente aquele que faz a vontade de Meu Pai que está no céu,” disse Jesus, pode reivindicar Seu nome. Somente aqueles que ouvem a verdade e a praticam são Seus irmãos e irmãs autênticos. Em seu hino sobre o amor, Paulo contrasta a inutilidade do conhecimento teórico com o único valor real do conhecimento prático. A verdade é realmente conhecida somente quando ela se torna vida interior.
E aqui temos outro mérito existencialista, esse de ter compreendido a base existencial da verdade Cristã, verdade que é comunicada mais pelo testemunho do que pela razão. Kierkegaard, considerava especialmente, a verdade Cristã como sendo a categoria da verdade existencial. Para ele, o “como” alguém se adere à verdade parece menos importante do que o “que” é recebido como verdade. Ele sentia que a verdade conhecida ou memorizada não é nada mais que um cadáver – um objeto sem valor. A importância se encontra não tanto na verdade como na atitude do conhecedor. Sem a atitude interior, o conhecimento é vão, ele escoa para o simples ato do conhecer. Ele até mesmo diz: “Não é a verdade que é verdade, mas é a linha de conduta que é a verdade, isto é, a verdade é apenas tornar-se, no processo da apropriação.”7
3. A Noção de Tornar-se
A noção de tornar-se é outro valor Bíblico afirmado vigorosamente pela filosofia existencialista. Não é segredo como este problema do tornar-se Cristão ocupou os últimos anos da vida de Kierkegaard. Foi em nome deste princípio que ele denunciou como a mais formidável ilusão dos tempos modernos a ideia que o Cristianismo é a mesma coisa que Cristandade, que todos os habitantes de um país são Cristãos por causa do único fato de terem sido batizados, e que eles não precisam se tornar Cristãos. Em nome do mesmo princípio, ele também falou contra o ultraconservadorismo da Igreja estabelecida, oficial, nacional, sendo concomitante com o Estado. Pelo contrário, a Igreja verdadeira é uma Igreja que está se tornando, ele diz, justamente como cada um dos seus membros deve ser.
Precisamos demonstrar quão corretas são estas afirmações ou enfatizar quão bem refletem uma das características dominantes do conceito Bíblico do homem?8 A história da criação marca conspicuamente o privilégio conferido à criatura humana – “…e o homem se tornou uma alma vivente.” Esta expressão indica claramente que o homem não existe como um objeto, que ele não é uma certa substância de ser, mas sim uma alma cuja existência depende a cada momento da atividade através da qual ele se torna, uma alma que não apenas tem vida, mas é em si mesma vivente. Em outras palavras, o homem não veio das mãos do seu Criador como um ser completo, possuindo desde o começo um caráter adquirido, uma personalidade bem determinada, em uma palavra, uma essência imortal. A perfeição do homem não se encontrava terminada, completa concedida desde o princípio pelo Criador, mas sim com a possibilidade de um desenvolvimento infinito, que a própria eternidade não pode exaurir. Levar a cabo o seu ser, tornarse, como ele era, tornar-se um ser à semelhança de Deus, este é o privilégio do homem bem como a graça especial do Criador. Porque ao cria-lo, Deus deu ao homem as possibilidades necessárias para atingir toda a plenitude à qual ele estava destinado, providenciou para que a criatura livre consentisse e cooperasse na realização do Seu plano para ele.
A prova do Jardim do Éden deve ser considerada nesta luz, bem como a peregrinação dos filhos de Deus desde a queda, a santificação de Jesus por aqueles que obedecem e nunca termina de aperfeiçoar aqueles que desejam ser iguais a Ele. Deus concedeu ao homem a graça de se tornar aquilo que ele resolveu ser. Pelo consentimento como o plano de Deus e sua cooperação com o poder divino, o homem tem a possibilidade de se criar como aquilo que ele deseja ser, para operar sua transformação de acordo com a representação que ele faz do seu modelo, participando da própria vida do seu Criador.
Esta ideia do homem de se tornar progressivo, essa do Cristão incluído, esta ideia de uma maturação, de um desenvolvimento necessário e de uma transformação prevista por Deus na economia primitiva, de tal modo que o homem pudesse atingir a maturidade, sua plenitude, sua forma como filho de Deus, se sobressai muito claramente na concepção geral Bíblica do tempo e da história. O processo da revelação gradual, assim como a compreensão progressiva do plano da salvação, confirma esta lei do tornar-se porque todas essas coisas tocam o ser do homem. A ética Cristã é fundamentada sobre este princípio; ela é a forma mais elevada da ética sem limite predeterminado. Ela não fixa a consecução de um alvo, não voa horizontalmente para o Cristão; longe de parar, em sua marcha adiante, todo progresso se torna um meio de ir mais para o alto, de sempre se aproximar mais do ideal. O Cristão jamais pode estar contente com aquilo que ele é visto que lhe é dito para ser perfeito com o seu Pai celestial é perfeito.
4. Realismo Existencialista e Seu Significado Teológico
Para completar, apenas no que diz respeito à antropologia, devemos adicionar umas poucas linhas acerca da concepção particularmente dramática do destino do homem encontrada nos escritos dos filósofos existencialistas, concepção que não é inteiramente estranha à noção Bíblica do homem, uma criatura mortal, tirado do nada, ameaçado a retornar ao nada a cada passo, e até mesmo mais, sobrecarregado com uma imperfeição original que torna a morte inevitável. Nenhuma filosofia jamais compreendeu com mais realidade esta fragilidade natural do homem, as razões para sua angústia localizada profundamente e seu sentimento trágico a respeito da vida frente à morte e o nada. Não existe problema para entender como os pensadores existencialistas de tendência ateísta não puderam fazer nada melhor do que se lançar para o nada, não ser fiel a coisa nenhuma, a abraçar alegremente a morte ou a absurdidade e considerar que “a história de qualquer vida é a história de uma falha.”9
Seja como for, mesmo este aspecto negativo do existencialismo contém alguma coisa interessante para o conhecimento do homem individual. Toda esta realidade humana composta de miséria, angústia, contradição, vaidades, sobre a qual os autores existencialistas têm tomado tanto tempo para escrever tão fielmente e tão precisamente, algumas vezes até mesmo brutal e cinicamente, ilustra perfeitamente o que a Bíblia nos diz sobre o homem natural, separado de Deus e em revolta contra Ele. A percepção desta situação trágica do homem natural, abandonado às suas próprias forças e impotente porque ele está “vendido para o pecado,” levou Paulo a exclamar num grito estranhamente existencialista: “Miserável homem que eu sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?” Contudo, o apóstolo não pára com o grito angustiado dos escritores de desespero; pelo contrário, ele conhece o remédio, e ele se apressa para apresenta-lo: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (Rm 7:14-25).
5. A Existência de Deus e Suas Relações Com o Homem
Esta referência a Deus, e ao Deus de Jesus Cristo, leva-nos naturalmente ao mais importante valor, do qual todos os dependem: a existência de Deus e Suas relações com o homem. Sobre este ponto mais importante, é suficientemente verdadeiro, os pensadores existencialistas terem uma atitude radicalmente divergente. E aqui, para cada um de eles, o teste de autenticidade está situado. O assunto a respeito de Deus provê a marca distintiva dos diferentes sistemas existencialistas: aqueles que são verdadeiramente fiéis ao pensamento existencial e aqueles que o traem.
A oposição radical entre o existencialismo e a filosofia clássica que era baseada sobre a razão e teorias abstratas, foi abundantemente enfatizada. Seria adequadamente correto dizer que a nova filosofia tem contradito a teologia tradicional, uma imitação exata da filosofia clássica. Pois assim como ele perdeu o homem, o humano individual, de vista, o humanismo moderno também perdeu de vista a linha de conexão entre Deus e o homem. E foi precisamente a reação de Kierkegaard que marcou tanto um retorno ao homem individual como um retorno ao Deus da revelação Cristã em quem o homem possui a fonte eterna de sua existência.
De fato, para Kierkegaard, o Cristianismo não assume apenas a existência do homem mas também a existência de Deus. O objeto da fé Cristã, ele diz, é a existência de Deus. Mas aqui novamente, como com o homem, não pode ser uma questão de um Deus abstrato, de um deus da especulação filosófica. É em vão que a última reivindica compreender e demonstrar a existência de Deus. A demonstração jamais pode, além disso, tocar a própria existência. É impossível demonstrar realmente que alguma coisa existe. Nada é mais impróprio do que tentar demonstrar a existência de alguém que existe. Desse modo, para ele, os esforços do pensamento especulativo para demonstrar a existência de Deus não são em nada melhor do que uma zombaria do próprio Deus. E consequentemente o Cristianismo repousa, de acordo com Kierkegaard, além de todas as provas racionais da existência de Deus. De fato Deus está em todo lugar na criação, porém Ele não está ali visível diretamente. É somente descendo para dentro de si mesmo, para seu próprio abismo interior, que o indivíduo está preparado para ver a Deus. “Deus discernível no coração,” como disse Pascal, esta é a realidade de Deus de acordo com o existencialismo Cristão. E ainda mais, o fato que Deus tem existido como um homem individual, nascido dentro do tempo, torna o Cristianismo no mais elevado grau uma “mensagem de existência,” uma “mensagem existencial.”
É verdade que neste ponto principal, o existencialismo, com Heidegger e Sartre, não tem sido mantido no curso que seu fundador tinha apontado. Por causa da posição esmagadora conferida ao pensamento destes filósofos, o existencialismo é afetado por uma falha fundamental. Esperando considerar o homem novamente como dependente de ninguém mais a não ser de si mesmo e separando-o de suas relações com Deus, que de acordo com Sartre, nem mesmo existe, estes pensadores têm simplesmente traído as intenções da nova filosofia. Com eles o em existencialismo, que nasceu como uma reação vigorosa contra o humanismo moderno, voltou para o humanismo e consequentemente corre o risco de ser tragado por esta grande corrente racionalista do pensamento moderno. Tudo depende da solução final que vencerá concernente à importante questão da existência de Deus e Suas relações com o homem.
Se ele escapar desta grotesca pobreza espiritual para onde alguns parecem estar empurrando-o, se ele redescobrir sem jogo de palavras a plenitude da existência, o existencialismo pode renovar a face e o espírito do racionalismo ocidental.10
Caso contrário, será simplesmente necessário impedir de tomar como a concepção clássica da vida a caricatura que os ateísticos existencialistas propõem.
Mas infelizmente, não podemos deixar de temer que as tendências do existencialismo ateístico estejam vencendo mais e mais, e que, finalmente, o termo possa apenas designar as excentricidades de nossa era, a literatura do desespero, a filosofia do absurdo, e mais tarde até mesmo uma teologia de Cristianismo sem Deus. Neste caso, o existencialismo verdadeiramente será, como já foi afirmado, a mais clara expressão “do colapso doutrinário que caracteriza nossa era,” ou ainda mais “a consciência de uma necessidade” a que o Cristianismo autêntico será de todos o mais bem qualificado para satisfaze-la porque ele não é um estranho ao modo de pensar que favorece tal entendimento. A mensagem do evangelho poderia então ser tão boa, para uma sociedade que tem mantido apenas o aspecto negativo da filosofia existencialista, quanto um remédio bem aplicado pode ser para uma enfermidade que é perigosa mas foi completamente diagnosticada.
Tudo o que o futuro possa ter em estoque para a filosofia existencialista, é não obstante impossível negar a natureza Cristã de sua reação original, que lançou mão, como disse E. Mounier de, “um retorno à religião num mundo que tem tentado encontrar seu significado naquilo que é simplesmente manifesto. O existencialismo Cristão é uma defesa óbvia contra a secularização da fé. Uma espécie de despertamento profético num plano filosófico.”11 E ele não é totalmente carente de interesse por nós para notar que o início deste despertamento está situado exatamente em 1843, o ano da publicação do primeiro protesto do fundador do existencialismo. Portanto não seria injusto reconhecer o extremo valor dos alvos seriamente tentados pelos pensadores existencialistas bem como os valores espirituais das várias verdades Cristãs sobre as quais esta filosofia foi fundada. Para sermos perfeitamente honestos, devemos adicionar que a teologia contemporânea tem um débito com o existencialismo por várias das suas descobertas mais essenciais, especialmente na esfera de ação da antropologia Bíblica.
P.H. Simon, l’Homme en Proces, p. 21, Paris, 1965.
Back to referenceE. Mounier, Introduction aus Existentialismes, p.8.
Back to referenceIbid.
Back to referenceIbid., p.9.
Back to referenceN. Berdiaef, Cling Meditations sur l'Existence, Editions Montaigne, p. 74.
Back to referenceS. Kierkegaard, Post-Scriptum, p. 50.
Back to referenceEtudamos esta noção de se tornar Cristão em Christian Perfection According to the Bible and the Spirit of Prophecy, Paris, 1965. Ela é particularmente discernível nos escritos da Sra. Ellen G. White.
Back to referenceJ.P. Sartre, L’Etre et le Neant, p. 631, Paris, Gallimard, 1943.
Back to referenceE. Mounier, p. 189.
Back to referenceIbid., p. 189, ênfase do autor.
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