Frank B. Holbrook
O batismo é um convite público ao novo crente para entrar em união com Cristo e Seu corpo, a Igreja (Rm 6:3 6 Ef 1:22, 23; 1 Co 12:13). Portanto, apenas um indivíduo que tem expressado sua fé em Jesus Cristo como seu Salvador pessoal e Senhor e que deseja entrar em um vínculo de união com Ele e Sua igreja deve participar desta ordenança.
Mas quem pode participar das outras duas ordenanças, lava-pés e a Ceia do Senhor? Esta questão tem gerado uma discussão considerável entre os Cristãos, particularmente no que diz respeito à Ceia do Senhor. Alguns grupos praticam o que é conhecido como Comunhão fechada. A frase significa que estas denominações restringem o rito aos seus próprios membros, ou mesmo aos membros de uma dada congregação.
Outras igrejas permitem o que é conhecido como Comunhão aberta. Elas deram boas-vindas a todos os cristãos à mesa do Senhor, independentemente de sua afiliação denominacional em particular. Historicamente, os Adventistas do Sétimo Dia têm sempre permitido esta prática. Nossa Declaração de Crenças Fundamentais, publicada anualmente no Seventh-day Adventist Yearbook (Anuário Adventista do Sétimo-dia), afirma: “O serviço de Comunhão está aberto a todos os crentes Cristãos.”1 Vamos dar uma olhada na base bíblica para esta prática.
Comunhão—Uma Cerimônia Apenas Para os Crentes
Podemos tomar nosso alimento físico sozinhos ou com os outros. Mas por causa da comunhão que ele oferece, geralmente preferimos o último. A este respeito, a refeição sagrada não é diferente. Embora possamos toma-la sozinho, o Salvador instituiu esta ordenança em um contexto de grupo.
Em sua primeira carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo chama a atenção para a comunhão, ou companheirismo, aspecto da Ceia do Senhor. Ele observa que esta ordenança envolve dois tipos de relacionamento: (1) o crente e Cristo e (2) o crente e seus irmãos Cristãos.
Falando sobre o primeiro, ele diz: “O cálice de bênção que nós abençoamos, não é a comunhão [grego: koinōnia— “comunhão, uma relação mútua estreita”] do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é a comunhão [koinōnia] do corpo de Cristo?” (1Co 10:16).
Aqui Paulo está enfatizando primariamente a relação do crente com o Salvador. Sua declaração relembra as palavras marcantes de Jesus: “Se vocês não comerem a carne do Filho do homem e não beberem o seu sangue, não terão vida em si mesmos... Todo aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6:53-56, NVI).
Quando o crente em humilde gratidão come e bebe os emblemas do corpo partido e do sangue derramado do Salvador, confessa de novo sua fé em Jesus Cristo. Desse modo ele expressa sua confiança Nele como seu Salvador pessoal e Senhor, e reafirma sua crença que Deus, por causa de Cristo, o tem perdoado e tem aceitado como Seu filho.2
Qual, então, é o principal significado desta ordenança sagrada? De qualquer modo, em certo sentido, ela não é uma refeição, mas a confissão do Cristão, em símbolo, de sua fé em Jesus Cristo. A Ceia do Senhor, então, é, obviamente, um ritual para Cristãos, isto é, para aqueles que reconhecem Cristo como Salvador e Senhor. Não-Cristãos e aqueles que ainda não têm idade suficiente para comprometer suas vidas inteligentemente a Cristo naturalmente deveriam ser excluídos da participação.
Embora a Ceia do Senhor sirva principalmente para vincular o crente ao seu Salvador, ela também reforça a comunhão dos crentes. Paulo escreveu: “Como há somente um pão, nós, que somos muitos, somos um só corpo, pois todos participamos de um único pão” (1Co 10:17). Como todas os pedaços do pão da Comunhão comidos pelos crentes vêm de um pão, assim todos os crentes que participam da Cerimônia da Comunhão estão unidos naquEle, cujo corpo é tipificado por esse pão partido. Participando juntos desta ordenança, os Cristãos demonstram publicamente que estão unidos e que pertencem a uma grande família, cuja cabeça é Cristo.3
Alguns Cristãos Devem Ser Excluídos?
Jesus observaria a Comunhão fechada se Ele estivesse conosco hoje? (Seu exemplo deve determinar nossa prática; ver Mt 16:24; 1Pe 2:21.) Os acontecimentos que ocorreram na sala superior quando Jesus instituiu a Ceia indicam claramente Sua atitude em relação a tal restrição.
Quando sincronizamos os relatos que Lucas e João escreveram, obtemos a sequência cronológica do que aconteceu na última noite de Cristo com Seus discípulos: (1) Começou a refeição da Páscoa (Lc22:14-18). (2) Jesus levantou-Se e lavou os pés dos discípulos (Jo 13:1-17), incluindo os de Judas. (3) Jesus instituiu a Ceia, consagrando o pão e o vinho e passou-os aos discípulos (Lc 22:19, 20). (4) Jesus identificou Judas como aquele que O trairia (versos 21-23; Jo 13:18-26). (5) Judas partiu, deixando o local tão abruptamente que o grupo confuso não entendeu o que tinha acontecido (João 13:27-30).
Todos os 12 discípulos se apresentaram para a refeição da Páscoa com Jesus (Mt 26:20; Mc 14:17; Lc 22:14). Judas Iscariotes era um deste grupo especial que Cristo havia designado para pregar em Seu nome (Mc 3:14-19 Lc 6:13-16). Junto com os outros Judas tinha exercido poderes especiais para expulsar espíritos imundos “e curar todas as doenças e enfermidades” (Mt 10:1). Ele também atuava como tesoureiro do grupo (Jo 12:6; 13:29).
Antes do tempo de Páscoa Judas fez arranjos para trair o seu Mestre (Mt 26:14-16). Mas o Salvador não foi tomado de surpresa. Ele estava plenamente consciente da traição de Seu discípulo, e tinha dito abertamente a todos eles alguns meses antes: “Eu não escolhi você doze, e um de vocês é um demônio?” (Jo 6:70).
Quando os discípulos se reuniram no Cenáculo naquela ocasião especial, não havia servo para lavar seus pés, e nenhum deles assumiu a tarefa. Então enquanto a refeição estava em andamento (provavelmente em seus estágios iniciais), Jesus levantou-Se para realizar essa cortesia (Jo 13:2-5, RSV).
Neste processo Jesus lavou os pés de Judas, seu traidor, sabendo muito bem que ele já tinha um acordo para fazer! Jesus anunciou este conhecimento quando, enquanto lavava seus pés, Ele disse abertamente aos discípulos: “Estais limpos, mas não todos” (verso 10).
Jesus identificou o ainda presente traidor somente depois de instituir a Ceia do senhor.4 A descrição de Lucas lê como segue: “Tomando o pão, deu graças, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: ‘Isto é o meu corpo dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim. Da mesma forma, depois da ceia, tomou o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vocês. Mas [Grego: plēn – uma conjunção, significando neste exemplo, “no entanto,” ou “mas”], eis que a mão daquele que vai me trair está com a minha sobre a mesa” (Lc 22:19-21).
Ao usar essa conjunção, Lucas ligou a declaração sobre a significância simbólica da afirmação de Cristo do vinho ao Seu anúncio da traição por alguém que estava presente. Jesus falou da nova aliança que estava sendo selada pelo derramamento de Seu sangue, e disse que, naquele mesmo momento a mão da pessoa cuja traição levaria ao derramamento de Seu sangue estava sobre a mesa que eles estavam reunidos ao redor. Judas participou não apenas da refeição da Páscoa e da lavagem dos pés, mas também da Ceia da Comunhão.
Ellen White descreve a cena nestas palavras: “Judas, o traidor, achava-se presente ao serviço sacramental. Ele recebeu de Jesus os emblemas de Seu corpo partido e Seu derramado sangue. Ouviu as palavras: “Fazei isto em memória de Mim. E ali, sentado na própria presença do Cordeiro de Deus, o traidor alimentava seus negros desígnios, e acariciava seus malévolos, vingativos pensamentos.”5
Um Ritual Evangelístico
Por que o Salvador permitiu que Judas participasse destes três acontecimentos sagrados: a Páscoa, a lavagem dos pés, e a Ceia da Comunhão? Sem dúvida uma razão era dar garantias aos apóstolos (quando eles mais tarde refletissem sobre essa experiência) que seu Mestre era verdadeiramente o divino Filho de Deus, o Messias, que Ele estava no pleno controle e sabia tudo a respeito de Judas e dos acontecimentos que estavam diante Dele (veja Jo 13:18, 19).
Mas havia uma razão mais importante: a compaixão do Salvador, Seu desejo de salvar Judas. Até esta noite, Judas não tinha fechado a porta de sua oportunidade de salvação. A misericórdia ainda apelava, e “deu-lhe ainda Jesus oportunidade de arrependimento.”6 Ellen White comenta: “Se bem que Jesus conhecesse Judas desde o princípio, lavoulhes os pés. E o traidor teve o privilégio de unir-se com Cristo na participação do sacramento. Um longânimo Salvador empregou todo o incentivo para o pecador O receber, arrepender-se e ser purificado da contaminação do pecado.”7
A partir deste breve esboço, é evidente que o Salvador jamais praticaria a Comunhão fechada. Nenhum dos discípulos estavam sem defeito quando se reuniram na sala superior (ver Lc 22:24). Mas por meio da lavagem dos pés e da Ceia, o Salvador atraiu a todos para um estado de humilde penitência e confiança Nele.
É por isso que os Adventistas do Sétimo Dia praticam a Comunhão aberta. Não podemos ler os pensamentos daqueles Cristãos que se reúnem conosco, mas sabemos que o Espírito Santo está presente para cortejar todos os pecadores que resistem em fazer apenas uma profissão de fé. Quem pode dizer que, quando o Espírito exaltar o Cristo amoroso (veja Jo 12:32), ninguém responderá a este “evangelismo ritual”?
Em vista do que Jesus fez, Ellen White escreveu este conselho para a igreja: O exemplo de Cristo proíbe a exclusão da ceia do Senhor. Verdade é que o pecado aberto exclui o culpado. Isto ensina plenamente o Espírito Santo (1Co 5:11). Além disso, porém, ninguém deve julgar. Deus não deixou aos homens dizer quem se apresentará nessas ocasiões. Pois quem pode ler o coração? Quem é capaz de distinguir o joio do trigo? . . .
Podem entrar pessoas que não são, no íntimo, servos da verdade e da santidade, mas que desejem tomar parte no serviço. Não devem ser proibidas . . .
Por Seu Espírito Santo, Cristo ali está para pôr o selo a Sua ordenança. Está ali para convencer e abrandar o coração. Nem um olhar, nem um pensamento de arrependimento, escapa a Sua observação. Pelo coração contrito, quebrantado espera Ele. Tudo está preparado para a recepção daquela alma. Aquele que lavou os pés de Judas, anseia lavar todo coração da mancha do pecado.8
Crianças Não Batizadas e a Comunhão
Visto que que a Páscoa original parece ter sido uma refeição familiar (Êx 12:21, 26), alguns sugerem que as crianças não batizadas devem ser autorizadas a participar da Ceia do Senhor. Mas assim como os Adventistas do Sétimo Dia rejeitam o batismo infantil, nós não aprovamos a “Comunhão infantil” e o “lava-pés infantil” também.
O Cristianismo, como é retratado nas Escrituras, é uma religião do crente. Para entrar em união com Jesus Cristo através do rito do batismo, um indivíduo deve ser velho o suficiente (1) para compreender as verdades da fé (veja Mt 28:20), (2) para fazer um compromisso inteligente com Jesus Cristo como seu Salvador pessoal e Senhor (At 16:30, 31) e (3) arrepender-se do pecado (At 2:38).
Como o batismo, o lava-pés é uma ordenança do crente – como é a cerimônia da Comunhão, algo executado ritualmente – a reafirmação da fé do crente em Jesus Cristo. O foco da refeição da Comunhão na verdade não está na união familiar (pai-mãe-criança ou marido-esposa). Em vez disso, este serviço enfatiza a fé do crente em seu Redentor e a união como crentes que compõem a igreja – o corpo místico de Cristo.
(Podemos observar aqui que, embora um menino Israelita fosse circuncidado no oitavo dia de sua vida – trazendo-o assim para dentro do vínculo do concerto – ele não se tornava um “filho da lei” – pleno (bar mitzvah) e nem atuava como membro da congregação até que alcançasse seu décimo terceiro aniversário.)
Embora as crianças não batizadas não devam participar nas ordenanças, os pais podem começar a instruí-las a respeito do seu significado (veja Dt 6:6, 7). No entanto, mesmo esta instrução não significa que uma criança está necessariamente pronta para participar nas ordenanças. Só porque um adolescente consegue entender algo sobre o amor, não significa que ele está pronto para o matrimônio! Nem o fato que um menino pequeno possa dirigir o automóvel da família rua abaixo enquanto ele se senta no colo de seu pai significa que está pronto para um Buick em vez de um triciclo. Adiantar a experiência de uma criança para aquilo que é projetado para anos mais maduros não é saudável. Reservar os privilégios da frequência à igreja como membro para o momento em que a criança se torna espiritualmente madura o suficiente para ser batizada está em harmonia com a natureza e as Escrituras.
Comer Para Nossa Própria Condenação
“Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpado de pecar contra o corpo e o sangue do Senhor. Examine-se cada um a si mesmo, e então coma do pão e beba do cálice. Pois quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe para sua própria condenação” (1Co 11:27-29).
Esta passagem tem tornado alguns cristãos indevidamente preocupados. Como pecadores, todos nós somos indignos da graça de Deus. Ninguém é digno do menor dos Seus favores (veja 1Tm 1:15). Mas o apóstolo não está falando disto. A palavra indignamente (Grego: anaxiōs) é um advérbio que significa “de uma forma indigna ou de maneira descuidada.” No contexto Paulo está falando sobre a maneira indigna em que os Coríntios estavam participando da Ceia. Eles vinham com disputas amargas entre si (1Co 1:11) e em disputa de facções (1Co 3:3). Aparentemente alguns chegavam até mesmo embriagados (1Co 11:21; Grego: methuō, “estar bêbado”). Naqueles tempos era comum ter uma refeição social antes das ordenanças serem celebradas.
Aproximar-se da mesa do Senhor de maneira indigna, acariciando o pecado conhecido contra Deus ou contra um irmão, é deixar de ver o propósito da vida e morte expiatória do Salvador, que o rito simboliza. Tal ousadia despreza a graça de Deus e demonstra a superficialidade de uma experiência Cristã que é apenas uma profissão.
Mas para os seguidores de Cristo comprometidos, a participação nas ordenanças do lava-pés e a Ceia da Comunhão recordam a abundância da misericórdia divina e a necessidade de arrependimento. Estes serviços oferecem-lhes um convite para renovar sua fé no Senhor Jesus e para fortalecer novamente o vínculo de comunhão com os outros crentes. Isto naturalmente os convoca para livrar-se “de toda maldade e todo engano, hipocrisia, inveja e toda espécie de maledicência” (1Pe 2:1) e tentar remover todas as diferenças com a família ou membros da igreja (veja Mt 5:23, 24; Tg 5:16). A ordenança do lava-pés especialmente permite um tempo para reconciliação.9 E como lembra-nos que o sangue de Jesus Cristo continua a purificar o coração de toda mancha (1Jo 1:7), ela oferece uma grande segurança. Celebrada com um espírito verdadeiro, tal ritual fortalece os laços da irmandade Cristã.
Na Ceia da Comunhão que se segue, confessamos novamente nossa fé no Salvador. Ao contemplarmos a maravilha do Calvário, parece que O ouvimos dizer: Sob a convicção do pecado, lembrai-vos de que morri por vós. Quando opressos, perseguidos e aflitos, por Minha causa e a do evangelho, lembrai-vos de Meu amor, tão grande que por vós dei a Minha vida. Quando vossos deveres vos parecerem duros e severos, e demasiado pesados os vossos encargos, lembrai-vos de que por amor de vós suportei a cruz, desprezando a vergonha. Quando vosso coração recua ante a dolorosa prova, lembrai-vos de que vosso Redentor vive para interceder por vós.10
E além dos símbolos da bacia e da toalha, o pão e o cálice, surgem diante do olho de nossa mente as longas cenas antecipadas da bendita esperança, a segunda vinda de nosso Senhor Jesus Cristo em poder e grande glória, vindo para os Seus, Seu povo expectante, como Ele prometeu (Jo 14:1-3). “Porque sempre que comerem deste pão e beberem deste cálice, vocês anunciam a morte do senhor até que ele venha” (1Co 11:26).
Seventh-day Adventist Yearbook (Hagerstown, MD: Review and Herald Pub. Assn., 1986), p. 6. Veja também “Lord’s Supper,” Seventhday Adventist Encyclopedia (Washington, DC; Review and Herald Pub. Assn., 1976), pp. 813, 814; e Manual da Igreja, Casa Publicadora Brasileira, Tatuí, SP, 2006, pp. 82-84.
Back to referenceVeja Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, Casa Publicadora Brasileira, Tatuí, SP, 2007, p. 389.
Back to referenceThe SDA Bible Commentary (Washington, DC: Review and Herald Pub.Assn., 1980), vol. 6, p. 746.
Back to referenceDeve ser observado que a fim de enfatizar o desânimo e a consternação produzidos pelo anúncio de Cristo de Sua traição, Mateus e Marcos revertem a ordem dos acontecimentos, colocando o anúncio no início da refeição da Páscoa. Lucas, por outro lado, registra os incidentes em sua sequência natural.
Back to referenceWhite, p. 653.
Back to referenceIbid., 655.
Back to referenceIbid. Veja também a 645.
Back to referenceIbid., 656.
Back to referenceThe O Desejado de Todas as Nações, pp. 650, 651.
Back to referenceIdem, p. 659.White, p. 653
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