
Ángel Manuel Rodríguez
BRI (retired)
Existem dois lugares nos escritos de Ellen G. White, onde ela afirma que Cristo salvou o mundo. Essas afirmações são usadas para argumentar que ela acreditava que na cruz Jesus salvou legalmente toda a raça humana. Olhemos para eles:
“Cristo foi tentado por Satanás em uma maneira cem vezes mais severa do que foi Adão, e em circunstâncias de todas as maneiras mais provado. O enganador se apresentou como um anjo de luz, mas Cristo resistiu às suas tentações. Ele redimiu a queda de Adão em vergonha e salvou o mundo. Há esperança para todos que desejam vir a Cristo e O recebem como seu Salvador pessoal. "1
Isso foi escrito em 1898, e parece ser a primeira vez que ela usou a expressão “salvou o mundo.” A sentença que segue essa afirmação é muito importante a fim entender corretamente o que ela quis dizer. Desde que Cristo salvou o mundo, “há esperança para todos os que desejam vir a Cristo, e O receber como seu Salvador pessoal.” É evidente que quando ela diz que Cristo “salvou o mundo” não significa que toda a raça humana foi salva. O que ela quer dizer? Olhe para a citação novamente. Ela descreve o ataque de Satanás contra Cristo e afirma que “Cristo resistiu às suas tentações.” Ele derrotou Satanás! O resultado dessa vitória foi que “Ele redimiu a queda em vergonha de Adão e salvou o mundo.” Ele pagou o resgate exigido como resultado da queda de Adão, e salvou o mundo no sentido de que agora existe esperança para todos os que vêm a Cristo, e O recebem como seu Salvador pessoal.
No próximo parágrafo, ela continua a explicar com mais detalhes o que quer dizer. Ela discute a encarnação de Cristo, como Ele Se familiarizou com as tentações e provações, colocando-Se entre os pobres, a fim de compreender suas aflições. Então ela diz:
“Diante do universo celestial, Ele revelou a grande salvação que Sua justiça traria aos homens, se eles a aceitassem – uma herança entre os santos e os anjos, na presença de Deus.”2
Ela agora está colocando a ênfase nos resultados da salvação que Ele “traria para os homens, se eles a aceitassem.” Ele traz a salvação, mas os humanos têm que aceitá-la ou de qualquer modo ela não estará disponível a eles. Como Ele nos trouxe essa salvação? Ela explica imediatamente:
“Com Seu braço humano Cristo circundou a raça, enquanto com Seu braço divino Ele Se apegou ao trono do Infinito, unindo o homem finito com o Deus infinito. Pela transgressão o mundo tinha sido divorciado do céu. Cristo construiu uma ponte sobre o abismo e conectou a terra com o céu. Na natureza humana, ele manteve a pureza do Seu caráter divino. ... Ele veio para transmitir Sua própria natureza divina, Sua própria imagem, à alma arrependida e crente.”3
A alienação dos seres humanos de Deus, que foi o resultado da queda, chegou ao fim através de Cristo. Ele Se tornou uma ponte viva entre Deus e os seres humanos porque Ele era ambos, humano e divino. Este foi o objetivo do ato de salvação de Cristo. Ele tornou possível que os seres humanos estivessem unidos a Deus; Ele “conectou a terra com o céu.” Mas apenas pecadores arrependidos podem se beneficiar dessa salvação. Isso é o que ela quis dizer quando disse que Cristo “salvou o mundo.”
Em 2 de junho de 1898, ela abordou novamente o mesmo assunto e o desenvolveu um pouco mais. No entanto, a mensagem básica continuou a ser a mesma. Aqui está o que ela escreveu:
“Cristo foi tentado por Satanás de uma maneira cem vezes mais severa do que foi Adão, e sob circunstâncias de todas as maneiras mais tentadoras. O enganador se apresentou como um anjo de luz, mas Cristo resistiu às suas tentações. Ele redimiu a queda vergonhosa de Adão, e salvou o mundo.
Com Seu braço humano, Cristo circundou a raça, enquanto que com Seu braço divino, Ele Se apegou ao trono do infinito, unindo o homem finito com o Deus infinito. Ele fez uma ponte sobre o abismo que o pecado havia feito, e ligou a terra com o céu. Em Sua natureza humana, Ele manteve a pureza de Seu caráter divino. Ele viveu a lei de Deus, e prestou-lhe homenagem em um mundo de transgressão, revelando ao universo celestial, a Satanás, e a todos os filhos e filhas caídos de Adão, que por meio de Sua graça, a humanidade pode guardar a lei de Deus. Ele veio para transmitir Sua própria natureza divina, sua própria imagem, para a alma arrependida e crente.
Existe esperança para todos os que desejam vir a Cristo e o receber como seu Salvador pessoal. A fé que se apoia em Cristo operará pelo amor e purificará a alma.”4
As mesmas ideias encontradas no artigo anterior são encontradas neste. Primeiro, Cristo foi tentado, mas Ele venceu Satanás. Segundo, ao vencer Satanás, Ele “remiu a queda vergonhosa de Adão, e salvou o mundo.” A conexão entre o ato de redenção e a salvação é a mesma do artigo anterior. Em terceiro lugar, ela imediatamente prossegue para explicar o que quis dizer quando afirmou que Cristo “salvou o mundo.” Significava que o trabalho objetivo de salvação de Cristo se consistiu em unir os seres humanos e Deus. “Ele construiu uma ponte sobre o abismo que o pecado havia feito, e conectou a terra com o céu.” Os seres humanos agora podem ter acesso e comunhão com Deus, tornando possível que os pecadores arrependidos sejam unidos a Deus e habilitados a obedecer à Sua lei. Por causa desse ato objetivo de salvação em favor do mundo, “existe esperança para todos os que desejam vir a Cristo e recebe-Lo como seu Salvador pessoal.”
Portanto, a frase “salvou o mundo” não significa que toda a raça humana foi legalmente salva na cruz. Significa que Cristo, por meio de Sua vida de obediência e Sua morte sacrificial, pagou o preço por nossa redenção e fez uma ponte sobre a separação causada pelo pecado de Adão, tornando possível que os pecadores arrependidos tenham acesso a Deus e sejam aceitos por Ele.
Nota Sobre a Redenção:
Eu gostaria de fornecer várias declarações de E. G. White nas quais ela explica o que quis dizer quando disse que Cristo redimiu-nos na cruz. Aqui está em questão o assunto de saber se ela disse ou não que quando Cristo redimiu-nos na cruz toda a raça humana foi legalmente justificada, e se salva em que sentido foi salva.
1. Todos Pertencem a Cristo Pela Criação e Redenção:
“Devemos instruir e orientar as almas a olhar para o exemplo de Cristo, a compreender sua obrigação para com Ele, que são Suas pela criação e pela redenção. Ele é o dono de todos os homens e mulheres e crianças que vêm ao mundo. Ele tornou-Se isto pagando o preço do resgate. Se os seres humanos caídos consentirem em se tornar filhos e filhas de Deus em obediência voluntária, eles se tornarão um com Cristo. O Salvador os comprou dando Sua vida para pagar a penalidade do pecado. ... Aqueles que são verdadeiramente convertidos revelarão a graça salvadora de Cristo trabalhando por essas almas cegadas por Satanás.”5
Existem diversos detalhes importantes nesta citação singular que merecem ser enfatizados. Primeiro, todo ser humano que vem a este mundo pertence a Cristo, porque Ele pagou o preço da redenção. Em segundo lugar, os seres humanos têm de concordar em se tornar filhos de Deus, demonstrando-o através de uma vida de obediência a Deus. Terceiro, é depois de consentir ser filhos de Deus que se tornam um com Cristo. O fato de Cristo redimir a todos na cruz não os torna automaticamente um com Ele.
2. Cristo Tem a Escritura de Posse:
“O mundo não reconhece que, a um custo infinito, Cristo adquiriu a raça humana. Eles não reconhecem que pela criação e pela redenção Ele detém uma reivindicação justa para cada ser humano. Mas como o Redentor da raça caída, a Ele foi dado a escritura de posse, o que Lhe dá direito a reivindicá-los como Sua propriedade.”6
Todos nós pertencemos a Cristo através da criação e da redenção. Por causa do pecado, sua reivindicação de posse nos levaria à morte eterna. Mas nós também pertencemos a Ele através da redenção e isso significa que Ele tem o direito de reivindicar-nos como Sua propriedade, a fim de nos salvar. De acordo com E. G. White, a raça humana não está disposta a reconhecer que todos nós fomos comprados por Cristo, que pertencemos a Ele, e que Ele tem o direito legal, a escritura de posse, para reivindicar-nos como Seus. A implicação é que o que Ele fez objetivamente na cruz por nós não resulta automaticamente em nossa libertação. Há uma falta de vontade de aceitar a posse de Cristo e enquanto esse for o caso, não somos libertados ou salvos de qualquer maneira ou forma.7
3. Cristo Pagou o Preço Como Um Dom Por Nós:
“Cristo pagou o preço da sua redenção. Há apenas uma coisa que você pode fazer, que é aceitar o dom de Deus. Você pode vir com todas as suas necessidades e invocar os méritos de um Salvador crucificado e ressurreto; mas você não pode vir esperando que Cristo cobrirá sua iniquidade, sua indulgência diária no pecado, com Seu manto de retidão."8
O dom de uma redenção já obtida por Cristo por nós não é forçado sobre nós. A redenção que Cristo adquiriu é “para todos os que a recebessem;”9 se todos a receberem todos serão salvos. Deus, através de Cristo, preservou a nossa liberdade e Ele espera que a usemos ao escolhe-Lho. Devemos aceitar o dom em um espírito de arrependimento e uma vontade de nos separar dos nossos pecados. Observe como ela é enfática em negar que o “manto de justiça” não cobre nossa iniquidade e indulgência diária no pecado. No entanto, a teoria de uma justificação legal universal ensina precisamente que a justiça de Cristo abrange a maldade e a indulgência ao pecado de indivíduos que ainda vivem em seus pecados e iniquidades, em rebelião contra Deus!
4. Através da Redenção Cristo Obteve o Direito de Resgatar-nos:
“Na Cruz do Calvário Ele pagou o preço do resgate da raça. E assim, Ele adquiriu o direito de resgatar os cativos das garras do grande enganador, que por uma mentira inventada contra o governo de Deus, causou a queda do homem, e que, consequentemente, perdeu todo o direito à alegação de ser chamado súdito leal do reino de Deus.
Satanás se recusou a deixar seus cativos irem. Ele os manteve como seus súditos por causa de sua crença em sua mentira. Tornou-se assim seu carcereiro. Mas ele não tinha o direito de exigir que um preço fosse pago por eles; porque ele não tinha obtido posse deles por conquista legal, mas falsa pretensão.
Deus, sendo o credor, tinha o direito de fazer qualquer provisão para a redenção dos seres humanos. A justiça exigia que um determinado preço fosse pago. O Filho de Deus era o Único que podia pagar esse preço. Ele Se voluntariou para vir a esta terra e passar pelo terreno onde Adão caiu. Ele veio como o redentor da raça perdida, para conquistar o astuto inimigo, e por Sua fidelidade firme ao direito, para salvar todos os que O aceitassem como seu Salvador."10
“Que direito tinha Cristo de arrebatar das mãos do inimigo os cativos? — O direito de ter feito um sacrifício que satisfaz aos princípios da justiça pelos quais é governado o reino dos Céus. Veio Ele à Terra como Redentor do gênero humano perdido,... Nosso resgate foi pago por nosso Salvador. Ninguém precisa ser escravizado por Satanás. Cristo está presente, como nosso ajudador todo-poderoso.”11
Observe, em primeiro lugar, que ao redimir-nos, pagando o preço pela redenção da raça humana, Cristo tem agora o direito de nos resgatar do poder escravizador de Satanás. Segundo, isso é necessário porque Satanás não está disposto a libertar seus cativos; ele não reconhece o direito legal de Cristo. Ele é o carcereiro e ainda está exigindo que um preço seja pago, possivelmente para ele, para a libertação deles. Mas ele não tem o direito de fazer essa reivindicação porque eles não lhe pertencem. Terceiro, Deus é o credor e Ele determinou como a redenção devia ser efetuada. Um preço devia ser pago, mas devia ser pago através do Filho de Deus. Em quarto lugar, Ele veio como um Redentor para a raça humana e derrotou Satanás. Finalmente, a eficácia salvadora da redenção que Cristo realizou é para “todos os O aceitassem como seu Salvador.” Não há necessidade de ninguém ser “escravizado por Satanás;” Cristo está diante de nós, pronto para nos libertar do poder do inimigo.
5. Cristo Nos Resgatou Tomando Nosso Pecado Sobre Ele:
“A divindade de Cristo se comprometeu a suportar os pecados do transgressor. Este resgate está em terreno sólido; esta paz prometida é para o coração que recebe Jesus Cristo. E recebendo-O pela fé, somos abençoados com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo.”12
“O resgate pago por Cristo – a expiação sobre a cruz – está sempre diante deles.”13
O preço pago por nossa redenção foi a morte sacrificial de Cristo na cruz como nosso substituto e portador do pecado – Sua expiação na cruz. É depois de recebê-Lo pela fé “que somos abençoados com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo.” A realidade da obra objetiva da salvação e redenção que Cristo executou em favor da raça humana tornou possível a todos retornar a Deus e reconhecer Cristo como seu legítimo dono, que pode realmente livra-los do poder escravizador de Satanás.
“Christ, The Second Adam,” Manuscript Releases, vol. 8, p. 40.
Back to referenceIdem.
Back to referenceIdem, pp. 40, 41.
Back to reference“The Second Adam,” Youth Instructor, 2 de junho de 1898.
Back to referenceThis Day With God, p. 355.
Back to referenceLetter 136, 1902 (SDABC, vol. 7a, p. 466).
Back to referenceEsses comentários nos trazem muito perto dos pontos de vista daqueles que pregam a justificação legal universal, mas o que E. G. White está afirmando não é exatamente o que eles estão dizendo. Eles vão além do que ela afirmou introduzindo uma visão que não é bíblica e que ela nunca apoiou ou estava ciente de que existia. Permita-me dar-lhe um exemplo. João Sequeira escreveu: “Eu creio que a Bíblia ensina que Deus realmente e incondicionalmente salvou toda a humanidade na cruz para que fôssemos justificados e reconciliados com Deus por esse ato (Rm 5:10, 18; 2Co 5:18, 19). Eu creio que a única razão pela qual alguém se perderá é porque ele ou ela deliberadamente e persistentemente rejeita o dom de Deus da salvação em Cristo” (Beyond Belief [Boise, ID: Pacific Press, 1993], p. 8). A ideia que Deus “na verdade e incondicionalmente salvou” a raça humana na cruz é estranha tanto para a Bíblia como para E. G. White.
Back to reference“The Poor in Spirit,” Bible Echo, 15 de maio de 1892, par. 8.
Back to reference“Àqueles que rejeitam a misericórdia tão livremente oferecida, ainda será feito saber o valor do que eles desprezaram. Eles sentirão a agonia que Cristo suportou na cruz para comprar a redenção para todos os que a recebessem. E então perceberão o que perderam – a vida eterna e a herança imortal” (“Be Zealous and Repent,” Review and Herald, 4 de setembro de 1883).
Back to referenceLetter 20, 1903. (SDABC, vol. 7a, pp. 468, 469).
Back to referenceMensagens Escolhidas, vol. 1 p. 309.
Back to reference“A divindade de Cristo se comprometeu a suportar os pecados do transgressor. Este resgate está em terreno sólido; esta paz prometida é para o coração que recebe Jesus Cristo. E recebendo-O pela fé, somos abençoados com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo.”
Back to referenceTestemunhos Para a Igreja, vol. 5, p. 190 (SDABC, vol. 7a, p. 468).
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