Harry W. Lowe
De todos os esforços contemporâneos para transformar o entendimento do homem de seu próprio ser a filosofia existencial está entre os mais notáveis. Bernard Ramm o chama de “um novo afastamento radical na filosofia que foi antecipada por Pascal e foi trabalhada mais sistematicamente por Kierkegaard.”1
A fim de apreciar esta nova abordagem filosófica radical da vida, é preciso ter em mente que quase todos os filósofos do décimo nono século estavam concentrados para resolver os mistérios do universo através de um exame objetivo, que era confiantemente predito, finalmente resolveria estes problemas, até mesmo aqueles da própria vida.
Hegel falou do “Espírito Escondido do Universo” que era “impotente para resistir ao poder do pensamento: ele deve se abrir diante deste, revelando à vista e trazendo prazer suas riquezas e profundezas.” “Deus o Universal” e “Deus Existe Porque Pensou” eram dois pensamentos dominantes na sua famosa A Filosofia da Religião.2
Cientistas contemporâneos desenvolveram esta atitude até o ponto onde todos os mistérios se curvariam diante do poder do pensamento, e todo o universo ficaria nu e revelado para a mente do homem.
Foi devido em parte a esta filosofia Hegeliana, e em parte à pretensão e formalidade da religião institucional, que Soren Kierkegaard, o introvertido, brilhante escritor Dinamarquês, propôs seus retumbantes protestos – perturbadores protestos quase ignorados na época, e desconhecidos ao mundo de fala Inglesa até que a Epístola aos Romanos de Karl Barth revelasse e reinterpretasse este “Pascal Dinamarquês” para o mundo teológico.
Leslie Paul, professor no Queen's College, Birmingham, Inglaterra, comenta como segue a perspectiva científica do décimo nono século, a qual era muito ingênua para Kierkegaard aceitar:
Mais cedo ou mais tarde, para a média do pensamento científico, tudo será conhecido: não será deixado nada no universo que não será explicado. O homem tem apenas que continuar incansavelmente os estudos científicos que ele já iniciou a fim de prestar esclarecimento de tudo. As descobertas astronômicas, as hipóteses evolucionárias, o vasto progresso nas ciências da vida e mecânica prometem não somente que logo o homem conhecerá tudo, mas será mais ou menos capaz de fazer tudo. Este ponto de vista do mundo científico também espera confiantemente que prestará esclarecimento para o homem: que ele também será cientificamente explicado e objetivamente conhecido.3
Soren Kierkegaard colocou em movimento uma sequência de pensamento, largamente ignorada pelo seu próprio século, sobre a qual filosofias existenciais subsequentes são construídas. Ele categoricamente recusou objetivar tudo no universo; ele veemente e persistentemente recusou ignorar o subjetivo, e a considerar tudo, até mesmo Deus, como um objeto a ser cientificamente examinado. Para ele, o que importava acima de tudo o mais era a transcendência de uma experiência interior viva. Um homem deve crer naquilo que ele professa; ele deve ser aquilo que pretende ser.
Blaise Pascal reconheceu a razão humana, e também o domínio do coração como duas estradas para a aquisição do conhecimento. A razão reinava onde o conhecimento objetivo dizia respeito, e o coração dominava na religião. Kierkegaard, não conhecendo nada de Pascal, também desenvolveu duas estradas para o conhecimento. A primeira era a maneira da aproximação por meio da qual o conhecimento objetivo do ambiente físico, ciência, matemática, se torna conhecido ao homem. Então vinha a maneira da apropriação, pela qual o homem existente poderia conhecer os fatos evidentes da religião, – Cristo, Deus, salvação. Kierkegaard era contrário a misturar estas duas estradas para o conhecimento.
A Primazia da Experiência Pessoal
Na filosofia existencial, a existência precede a essência. Isto quer dizer que, o ser pessoal, a identidade individual, é basicamente mais importante que quaisquer processos ontológicos ou metafísicos pelos quais um homem chega a entender as realidades do mundo que o cerca.
Kierkegaard compreendeu isto quando ele buscou a verdade, e ele disse:
... a verdade existe para o indivíduo particular somente quando ele próprio a produz em ação... A verdade sempre teve muitos pregadores barulhentos, mas a questão é se um homem está desejoso no sentido mais profundo de reconhecer a verdade, de permitir que ela permeie todo o seu ser, de assumir todas as consequências dela e não reservar em caso de necessidade um lugar escondido para si mesmo, e o beijo de Judas como a consequência.4
Ele era tão insistente sobre a primazia da sinceridade pessoal e a experiência dinâmica, que ele mesmo foi tão longe que chegou a dizer que como existentes não precisamos estar primariamente preocupados com proposições verdadeiras, mas deveríamos estar supremamente preocupados em estar pessoalmente “na verdade.” Quando respondemos com fé e paixão a Cristo como Alguém Encarnado, então estamos na verdade.
Somente quando um homem está sozinho ele pode defrontar-se com o Eterno. E o ato que é solicitado neste ponto não é um de mero reconhecimento noético. Quando é conhecido tudo o que pode ser conhecido, a parte responsável mais importante da vontade no homem ainda tem que se render. Ele deve atuar, ele deve escolher, ele deve arriscar, ele deve dar o salto. Porque numa existência onde permanecem diferenças qualitativas, não existe outra entrada para o nível mais profundo da vida existencial como um indivíduo. Somente por este salto de fé pode alguém conhecer o livramento da culpa, o senso de comprometimento, a aceitação de uma vocação, de um chamado em cujo serviço está a perfeita liberdade.5
Ler Purity of Heart em longas seções é captar o frequente refrão do autor incorporando a oração para conhecer a Deus como algo que importa, possuir “uma vida que tem desejado alguma coisa,” experimentar triste arrependimento e “vitória no dia da necessidade… desejar apenas uma coisa.” E fazer o mesmo com Edifying Addresses de Kierkegaard é ouvir seu grito através dos anos a viver diante do Eterno “como um indivíduo.”6 Infelizmente, este “eu” pessoal não significa a mesma coisa nas mãos de alguns outros filósofos e teólogos. Para um homem o “eu” é tangível, para outro intangível; para um é o “corpo” e a “alma,” para outro uma unidade, ou uma unidade psicossomática; ainda outros têm falado da substancialidade do eu, mas Heidegger e outros têm criticado severamente isto. Muitos evitam definições e falam do eu como uma unidade.
O estudante Cristão reconhece, de fato, que, belamente como alguns Cristãos existencialistas têm se expressado sobre a importância do eu em relação a Deus, suas ideias não são novas. Elas são, embora não tão intencionalmente, uma re-ênfase da doutrina Cristã da conversão e regeneração, que incorpora confrontação, comprometimento total, como também expressado em vários outros termos experienciais no vocabulário existencialista. Os homens estão procurando no escuro termos com os quais expressar seu desamparo, seu medo (para usar um termo existencial frequente), e sua desesperadora necessidade. Uma publicação recente da The Ecumenical Review se refere ao “atual reavivamento do interesse na conversão entre as comunhões Cristãs,” e declara que “uma impressiva lista de livros tem sido publicada sobre o assunto.”7 As diferenças entre comprometimento existencial e conversão Cristã servem apenas para mostrar a busca pela realidade e autenticidade nas forças morais e espirituais que dominam a vida do homem.
O Cristão Adventista do Sétimo Dia reconhecerá a necessidade fundamental da fé viva e da completa entrega pessoal do indivíduo. Ele sabe que sua literatura denominacional está repleta de apelos para uma “entrega incondicional” do eu a Cristo, por reconhecimento que “tudo quanto possuímos deve ser consagrado a Deus.”8 Ao mesmo tempo ele confessará que sua dificuldade não é encontrar expressão teórica oficial de tais ideais, mas encontrar resposta adequada em sua própria experiência de vida. Ele sabe que deve lutar contra a tendência de se estabelecer numa aderência Cristã nominal ou morta, e ele deve sempre procurar uma fé vibrante, viva, pessoal. Podemos nós como Cristão existentes nos reanimar para este dinamismo existencial, ou necessitamos da ajuda exterior provida através do Espírito Santo? Somente de alguma maneira ou maneiras podem as crenças doutrinárias ser traduzidas para uma semelhança de relevância para a situação contemporânea.
É precisamente neste ponto de padrões específicos de crença e conduta que a teologia moderna, incluindo a filosofia existencial Cristã, vacila em suas tentativas para prover à humanidade que se debate alguma coisa como um ancoradouro seguro. A confrontação deve ser mais que uma experiência estática; e o comprometimento subsequente deve ser a alguns ideais e padrões de vida, ou tudo termina em futilidade. O comprometimento deve ser com um Deus transcendente cujos padrões revelados são requerimentos que NÃO estão sob o controle do homem. C. S. Lewis sustentava a futilidade de colocar a razão humana ou o eu, como a medida para julgamento pela qual tudo é julgado. “A menos que a vara de medida seja independente das coisas mensuráveis, não podemos fazer nenhuma medição.”9 Lewis era um erudito, palestrante, autor de reputação, que também era um sobrenaturalista completo que por fim permaneceu como um apologista das crenças fundamentais Cristãs. Está seriamente aberta a questão se a opinião de Kierkegaard que a verdade é alcançada somente quando um homem “a produz em ação” está correta, exceto no sentido que um homem deve viver o conhecimento da verdade a fim de perceber mais verdade. Isto requer uma revelação inicial que está além da perspicácia humana. É insustentável para nós que o homem crie seus próprios padrões morais.
Uma olhada rápida em algumas das crenças Cristãs básicas como vistas pelos existencialistas modernos revela algumas coisas que seriam suficientes para trazer preocupação aos Adventistas do Sétimo Dia.
I. Divindade
Desde o tempo que Nietzsche proclamou que Deus está morto, e os existencialistas não Cristãos como Jean Paul Sartre declararam que a ideia de Deus era impossível, teólogos filosóficos modernos têm se inclinado em alguns casos a ir à deriva para um sentimento que “Deus está morto.” Eles assumem que os deuses têm morrido continuamente durante toda a história humana, e agora o institucionalismo Cristão e o Deus Cristão estão em declínio. Desse modo John Wild, um ilustre filósofo, professor, membro da Sociedade para a Filosofia Fenomenológica e Existencial, diz:
Que isto esteja acontecendo uma vez mais é indicado pelo sentimento da ausência de Deus que é expressado por vários pensadores religiosos sensíveis de nosso tempo, tais como Heidegger, Paul Tillich, e Simone Weil. Deus se retirou do domínio das máquinas e ... estes grandes sistemas de tecnologia são incapazes de nos ajudar a entendermos a nós mesmos como pessoas responsáveis, para não dizer nada da transcendência, a fonte de nossa liberdade humana. Não podemos nem mesmo conceber a Deus desta maneira. Então ele se retirou, como os filósofos têm visto e têm dito em sua própria maneira peculiar.10
Se, como John Wild sugere, o existencialismo for uma das várias alternativas para teologia radical moderna, ele certamente precisa de alguma coisa mais para oferecer aos homens inquietos, solitários, do que a filosofia incerta que Deus pode estar ausente, mesmo embora Ele não esteja morto.
Paul Tillich, príncipe dos existencialistas modernos, era fortemente contrário à doutrina Cristã de um Deus pessoal, e declarou:
Muitas confusões na doutrina de Deus e muita fraqueza apologética poderiam ser evitadas se Deus fosse entendido antes de tudo como um ser ou como a base do ser.11
‘Deus Pessoal’ não significa que Deus é uma pessoa. Significa que Deus é a base de tudo o que é pessoal e que ele carrega dentro de si mesmo o poder ontológico da personalidade. Ele não é uma pessoa, mas ele não é menos do que pessoal. Não deve ser esquecido que a teologia clássica empregava o termo persona para as hipóstases trinitárias mas não para o próprio Deus. Deus se tornou ‘uma pessoa’ somente no décimo nono século, em conexão com a separação Kantiana da natureza governada pela lei física da personalidade governada pela lei moral.
O teísmo usual tem tornado Deus uma pessoa celestial, completamente perfeita que habita acima do mundo e dos homens. O protesto do teísmo contra tal pessoa mais elevada está correto. Não existe evidência para sua existência, nem é ele uma questão de preocupação fundamental. Deus não é Deus sem participação universal. ‘Deus Pessoal’ é um símbolo desconcertante.12
Isto não é planejado para vincular qualquer estigma ateístico ao brilhante Paul Tillich. Contudo, qualquer Cristão Adventista do Sétimo Dia que faz uma leitura extensiva de Tillich certamente é deixado com ideias extremamente atenuadas da Divindade, da divindade de Cristo, dos feitos miraculosos etc., e se as ideias de Rudolf Bultmann sobre o sobrenatural forem adicionadas, então a conclusão parece inevitável que a fé Cristã simples como o Adventista do Sétimo Dia a entende, não pode compreender tal testemunho negativo.
Martin Heidegger apresenta os pontos de vista de muitos existencialistas neo-ortodoxos sobre a doutrina de uma divindade pessoal, soberana. Objetivando a universalidade de um ser mais elevado, ele comenta:
Todos que têm chegado a conhecer a teologia de dentro do seu desenvolvimento, tanto essa da fé Cristã bem como a da filosofia, preferem permanecer silentes hoje no domínio do pensamento sobre Deus.13
No mesmo artigo Wolfhart Pannenberg chama a atenção para a ideia de um Deus dispensável para a qual os existencialistas, bem como muitos outros, estão contribuindo:
Todos que tentam falar de Deus hoje não pode mais levar em conta serem completamente entendidos. De qualquer forma, este é o caso se alguém tiver em mente o Deus vivo da Bíblia como a realidade que tudo determina, como o criador do mundo. Falar do Deus vivo, o criador do mundo, é correr o risco de se tornar um som oco hoje, até mesmo um impedimento, no entendimento da realidade do mundo no qual existimos, determinado como ele é pela ciência e tecnologia.
O ataque contra as ideias Cristãs de Deus sempre tem existido, e em forma multiformes, mas ao longo dos anos da história da igreja, o ataque proveniente de dentro provavelmente nunca tenha sido tão virulento como ele é hoje. O homem sofre de um senso de alienação, e quanto mais ele se submete à investigação filosófica, mais ele se sente como “um alienígena num universo alienado.” Um universo hostil e complexo tem conduzido uma minoria vocal para atacar a ideia de uma pessoa, uma Divindade que supervisiona. Quando esta ideia é abandonada, então, como um editor recentemente comentou:
Temos o paradoxo de uma Igreja que, de acordo com certos oradores influentes, não sabe o que ela é e o que ela deve fazer, presumindo falar a homens e mulheres que não sabem quem eles são.14
Não é de se admirar que tantas pessoas não creem mais na predição de nosso Senhor concernente à Sua igreja: “E as portas do Hades não poderão vence-la”15
Na discussão da alienação existencial, poderia ser esperado que homens Cristãos exercessem restrição, que pelo menos eles fossem logicamente compelidos a darem passos bem sucedidos que se rendessem a toda crença num Deus pessoal, cujo controle supervisor, embora nem sempre visto e entendido, conduz para fins pré-determinados. Os rompimentos trazidos sobre nós pelo mistério da rebelião e perversidade, têm produzido condições de vida inexplicavelmente desconcertantes; e nada a não ser a fé na mão invisível mas guiadora de Deus pode resolver os problemas do eu individual sob estas condições. Chamar isto de “o salto da fé Kierkegaardiano,” ou de “comprometimento total” do existencialismo, contribui para aceitar que continua sendo verdade que Deus é conhecido somente para o homem que exerce fé à extensão de uma entrega total do eu a Ele.
Helmut Gollwitzer, em seu recente livro, The Existence of God as Confessed by Faith16 afirma mais uma vez a ideia que Deus se torna conhecido somente através da “proclamação Cristã,” e que todas as ideias Cristãs sobre Deus veem “da experiência concreta e contingente de receber comunicação vinda de Deus.” Karl Barth propôs o ponto de vista que “Deus pode ser conhecido somente através de Deus.”
Como o homem pode conhecer a Deus? A “proclamação Cristã” conota uma “comunicação” prévia “vinda de Deus?” Poderia esta comunicação vinda de Deus ser identificada com a doutrina ortodoxa Cristã da graça, que é iniciativa de Deus procurar o homem? Estas são algumas das questões que nós Cristãos devemos responder se esperamos colocar as crenças Cristãs básicas num contexto existencial contemporâneo relevante.
II. Revelação e o Sobrenatural
Explorar e elucidar a fé Cristã num mundo perplexo e hostil é tanto emocionante como perigoso. As crenças devem ser inteligentemente mantidas, e elas devem resistir a alguns escrutínios, mesmo embora elas possam estar além da completa racionalização humana. A única fonte das crenças Cristãs básicas está no Novo Testamento, e o teólogo filosófico moderno acha difícil crer em alguns dos seus conteúdos. Ele está presumivelmente preparado para aceitar alguma historicidade e veracidade nos eventos notáveis tais como a existência, ministério, julgamento, e morte de Jesus de Nazaré. Porém, ele logo se sente capturado numa rede, porque existem milagres, tais como a encarnação, prodígios como anjos enviados por Deus, e ressurreição dos mortos, – e estas coisas são incompreensíveis ao homem moderno. A atitude do teólogo existencial tem muito recentemente sido demonstrada por John Macquarrie:
Mas logo descobrimos que mesmo aquelas passagens que parecem ser prontamente inteligíveis estão intimamente emaranhadas em outras passagens com as quais o caso é muito diferente. O quadro geral que o Novo Testamento oferece é estranho e quase fantástico para qualquer pessoa que tenha uma perspectiva moderna. O que fazemos com as histórias de prodígios e milagres, com as vozes vindas do céu e anjos enviados por Deus? Como entendemos os misteriosos ‘principados e potestades’ essas forças demoníacas das trevas sob as quais o mundo é dito ser mantido em sujeição? O que significa falar da morte de Jesus como um ‘resgate por muitos,’ ou como uma ‘propiciação’ para os pecados do mundo? Podemos vincular algum significado à história de Cristo descer ao submundo, onde ele pregou aos ‘espíritos em prisão’? Podemos fazer com que os estranhos incidentes que são ajustados em conexão com sua ressurreição fazerem algum sentido? Com nossas ideas do universo, podemos entender sua ascensão ao céu, onde ele é exaltado à mão direita do Pai? E o que dizer daquelas cenas da vinda do fim, quando o Filho do Homem retornará nas nuvens e os fiéis o encontrarão no ar?17
Emil Brunner está preparado para aceitar sua própria versão da tradição do Novo Testamento, contanto que ele possa apagar o nascimento virginal, a tumba vazia, o ministério de quarenta dias pós-ressurreição, e a ascensão corpórea para o céu. E existem muitos outros teólogos existenciais que compartilham seus pontos de vista. Quão longe podemos ir nestas tentativas para desconsiderar a historicidade do Novo Testamento, e para minar sua veracidade?
Macquarrie menciona uma comparação com as ideias de nossos pais de um universo compacto e geocêntrico de três camadas com o céu acima, o submundo abaixo, e a terra do homem no meio. Nas mãos de homens menos cuidadosos esta comparação se torna um furioso ataque iconoclasta contra quase tudo o que é sagrado para a crença Cristã.
O problema se torna muito real quando é afirmado que tais coisas tão importantes como a ascensão foram “perfeitamente inteligíveis para os homens que desfrutaram as velhas cenas do mundo, mas se tornaram ininteligíveis para nós na era pós-Copernicana.”18
Em seus aspectos mais amplos isto tende a corromper toda a questão da revelação, tanto quanto diz respeito ao Cristão evangélico. Ele pode aceitar isto e por meio disso abandonar sua lealdade ao ensino histórico da igreja sobre a revelação Bíblica, ou ele deve encontrar uma defesa adequada da fé ortodoxa Bíblica contra estas afirmações impetuosas.
É claro que tais coisas como confrontação, e comprometimento, a uma Pessoa divina, toma um novo significado numa filosofia existencial que visa destruir o Deus com quem o Adventista ortodoxo tem praticado comunhão diariamente, Aquele em quem ele vive se move e tem seu ser. Conversão, meditação, o estudo da Palavra revelada é para ele a confrontação imediata. A morte é para ele o caminho de entrada para a confrontação final com a Pessoa, e não é o horror que ela era, e é, para tantos filósofos. De fato, Kroner registra que o Sein und Zeit de Heidegger se ocupa tanto com a morte que ele “transformou esta filosofia da vida numa filosofia da morte,” e ela certamente lhe deu respeitabilidade acadêmica.19
III. Escatologia
Geralmente entre os evangélicos, as últimas coisas desempenham uma parte significativa, culminante na teologia Cristã, porém é difícil escapar da convicção que o liberalismo existencialista, nas mãos de homens admitidamente sérios e brilhantes, tem ofuscado “a bendita esperança” e não pouco. O tratamento de Bultmann é demonstrado sucintamente por George W. David:
De forma segura, ele [Paulo] não abandona a cena apocalíptica do futuro, da parousia de Cristo, da ressurreição dos mortos, do Julgamento Final, da glória para aqueles que creem e são justificados. Mas a bem-aventurança real é a justiça, e com ela a liberdade. O reino de Deus, ele diz, é justiça e paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14:17). E isso significa: a concepção da bem-aventurança é considerada com respeito ao indivíduo; e este estado de bem-aventurança já está presente. O crente que recebeu o batismo está ‘em Cristo.’ ... O tempo da bem-aventurança, prometido por Isaías, está presente...
No entendimento de Bultmann, a escatologia é aquilo que abre a porta para a vida autêntica; isto é, para aquilo que supera o pecado e a morte, tornando o futuro seguro. Neste sentido, a [primeira] vinda de Jesus é escatológica em caráter, como são também sua morte e ressurreição, visto que estes eventos afetam profundamente a vida do homem tanto neste mundo como no que virá.20
Na tradução de R. H. Fuller do livro Primitive Christianity and Its Contemporary Setting,21 de Bultmann ele se refere à escatologia do Novo Testamento como uma “renúncia do mundo,” “escapismo,” “asceticismo,” “sobrenaturalidade,” e diz que “Jesus estava enganado em pensar que o mundo estava destinado a chegar logo no fim.” Ele vê o primeiro advento de Jesus Cristo como “o evento escatológico” que trouxe o velho mundo a um fim, e o segundo advento é para ele, em primeira instância, a vinda de Cristo para a vida humana através do ato de fé, e em segunda instância, ele é a “obediência contínua” e a prontidão para a “inevitabilidade do julgamento divino.” É incompreensível para Bultmann que um corpo morto possa ressurgir novamente, e a ressurreição corpórea é para ele “a concretização legendária” da igreja primitiva que Deus exaltou Alguém que foi crucificado.
Bultmann está admitidamente numa base feliz caçando tais pontos de vista modernistas. Mas outros filósofos e teólogos existenciais provêm pontos de vista semelhantes, – pontos de vista que destroem as concepções evangélicas da transcendência divina, da primazia da revelação externa da verdade, da Santa Palavra inspirada, do julgamento final do mundo, e a vida por vir. Deveria ser possível lidar com outras ênfases doutrinárias, tais como a redenção, expiação, graça, pecado, fé, criação, o julgamento final, a encarnação, e mostrar em cada caso que a filosofia existencial liberal está permeada com concepções modernistas que estão removidas para longe dos ensinos doutrinários evangélicos fundamentais. A filosofia existencial oferece algumas maneiras de tornar a verdade do Novo Testamento relevante para nosso tempo, John Macquarrie faz esta admissão:
Um existencialismo Cristão possui suas próprias lacunas e problemas não resolvidos. Ele corre o perigo de subjetivar tanto o elemento histórico na mensagem do Novo Testamento que a distinção entre história e ficção fique borrada, e alguém teria que perguntar a respeito da importância deste problema. Novamente, embora ele salve o dogma de um intelectualismo estéril, poderia parecer que ele varreu quaisquer implicações ontológicas do dogma, e alguém teria que perguntar a respeito da importância deste problema também. É duvidoso se a filosofia existencialista em si mesma seria adequada para investigar estes problemas.22
Conclusão
Temos reconhecido neste documento, e em outros nestas séries, que o existencialismo Cristão possui algumas lições de valor no domínio do viver dinâmico. A coisa mais difícil no ministério Cristão é levar as pessoas a viverem de acordo com sua profissão da verdade, a encontrar-se com Deus em comprometimento absoluto. Este comprometimento deve envolver padrões da verdade. Se aceitamos a auto revelação de Deus como a fonte da verdade espiritual e doutrinária, então em que ponto seremos compelidos a dirigir-se para longe de qualquer filosofia que não aceita algumas concepções Cristãs básicas nesta área da revelação, e da direção divina? A concepção Bíblica que uma Divindade universal pode ser ao mesmo tempo pessoal para cada crente, não deveria ser impossível para o homem de fé aceitar. Ela tem encontrado aceitação, com certas modificações, no Catolicismo Romano, no Calvinismo, no Arminianismo, e na maioria dos ramos do Protestantismo.
Em algum lugar entre a concepção Calvinista e a Arminiana da soberania de Deus devemos tomar uma posição firme sobre esta soberania divina básica, da qual muitas das nossas outras concepções Cristãs básicas são derivadas. Nós Adventistas não somos cem por cento Arminianos na opinião deste escritor, e certamente não somos mais cem por cento Calvinistas. O ponto intermediário exato não importa, mas a verdade comum básica para ambos importa.
É interessante observar duas declarações não diferentes sobre a soberania divina, a primeira de uma fonte Calvinista e a outra de uma Arminiana:
A soberania de Deus! O que queremos dizer com esta expressão? Queremos afirmar a supremacia de Deus, a realeza Deus, a Divindade de Deus. Dizer que Deus é soberano é declarar que Deus é Deus. Dizer que Deus é soberano é declarar que Ele é o Altíssimo, que “Ele age como Lhe agrada com os exércitos dos céus, e com os habitantes da terra. Ninguém é capaz de resistir à Sua mão ou dizer-Lhe: ‘O que fizeste?’” (Dn 4:35 NVI). Dizer que Deus é soberano é declarar que Ele é o Todo Poderoso, o possuidor de todo o poder no céu e na terra, de modo que ninguém pode derrotar Seus conselhos, opor-se aos Seus propósitos, ou resistir Sua vontade (Sl 115:3). Dizer que Deus é soberano é declarar que Ele ‘governa as nações’ (Ps. 22:28 NVI), estabelece reinos, derruba impérios, e determina o curso das dinastias como melhor Lhe apraz. Dizer que Deus é soberano é declarar que Ele é o ‘único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores’ (1Tm 6:15 NVI). Tal é o Deus da Bíblia.23
Nos anais da história humana o crescimento das nações, o levantamento e queda de impérios, aparecem como dependendo da vontade e façanhas do homem. O desenvolver dos acontecimentos em grande parte parece determinar-se por seu poder, ambição ou capricho. Na Palavra de Deus, porém, afasta-se a cortina, e contemplamos ao fundo, em cima, e em toda marcha e contramarcha dos interesses, poderio e paixões humanas, a força de um Ser todo-misericordioso, a executar, silenciosamente, pacientemente, os conselhos de Sua própria vontade.24
Estas são afirmações fortes, mas elas contêm algumas verdades resistentes que são claramente Bíblicas, e elas têm dado segurança para os santos Cristãos através das eras. Podemos abandona-las aos assaltos furiosos da filosofia moderna os quais nos deixarão com uma explicação da vida quase sem significado?
Se pudermos nos concentrar no viver dinâmico que inclui a prática da verdade como nós agora a entendemos, poderíamos conduzir a igreja através do mar tempestuoso que nos traz a uma fé e amor mais profundos, e às crescentes luz e verdade – tudo baseado sobre a verdade tranquilizadora, resistente que Deus ainda é “o Soberano do Universo.”25 Em outros lugares na própria literatura da igreja Ele é chamado de “o Soberano do mundo, o Dominador do universo.”26 A garantia da “Mão que dirige os acontecimentos”27 é necessária entre nós, caso contrário a filosofia que não é baseada na Fonte externa da Verdade acabará numa inevitável confusão experiencial e doutrinária. Os existencialistas não gostam de ser descritos ou classificados, o que tem levado alguns escritores a chamarem sua filosofia de um estado da mente, uma obsessão com o eu, ou até mesmo de “um sintoma de exaustão espiritual aguda.”28 Como tal ele não pode dar estabilidade espiritual à vida.
Não estamos depreciando a filosofia existencial quando dizemos que, por um lado, tudo quanto é brilhante e atraente em seus ensinos já podemos encontrar na apresentação Cristocêntrica de nossos ensinos Bíblicos, e, por outro lado, tudo quanto está faltando em sua ênfase doutrinária modernista nos é oferecido no conteúdo balanceado, conservador, tranquilizador da Mensagem do Advento.
É dito que no pensamento Hebraico a palavra “verdade” comunica fundamentalmente as ideias de solidez, segurança, fidelidade, firmeza. No pensamento Grego do Novo Testamento a palavra sugere aquilo que é revelado e livre de aparências falsificadoras. Ambos os significados são vistos em tais expressões como “SENHOR, Deus da verdade;”29 “Os teus mandamentos permanecem firmes.”30 Jesus Cristo é chamado de “verdadeiro”31 porque Ele completa os propósitos de Deus na salvação e julgamento. A verdade é encontrada na Palavra escrita32 e o evangelho é chamado de “palavra da verdade, o evangelho que os salvou.”33
“O conhecimento da verdade não é teórico, mas “existencial,” uma realidade viva enraizada na auto entrega do homem.”34
A verdade, acima de tudo o mais, é alguma coisa para ser crida, e então influenciar. Somente assim pode o existencialismo Cristão encontrar um significado verdadeiro e satisfatório.
Se tem nos faltado o santo fogo do comprometimento dinâmico Cristão, o altar ainda está em chamas para nos reacendermos; se nossa ênfase sobre dogma tem estado intocada pelo ágape divino e portanto tem se inclinado a estar tão fria como as estrelas no céu invernal, ainda existe o amor eterno e redentor para ser injetado na doutrina sem significado e torna-la significativa e atrativa numa vida dedicada.
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Back to referenceEllen G. White, O Grande Conflito, Casa Publicadora Brasileira, Tatuí, São Paulo, 2008, p. 169.
Back to referenceClifford Edwards, em Christianity Today, 12 de Maio de 1967, p. 13.
Back to referenceSalmos 31:5 (NVI).
Back to referenceSalmos 93:5 (NVI).
Back to referenceApocalipse 3:7, 14 (NVI).
Back to referenceJoão 17:17.
Back to referenceEfésios 1:13(NVI).
Back to referenceChr. Senft, Vocabulary of the Bible, Editor, J.-J. Von Allmen, Lutterworth Press, London, 1958, p. 431.
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