Carmelo Martines
Raúl Kerbs, El problema de la identidad bíblica del cristianismo (O problema da identidade bíblica do cristianismo), Libertador San Martín: Ediciones Universidad Adventista del Plata, 2014), 682 pages, ISBN 978-987-1378-32-6. US$39.00
Este livro de Raúl Kerbs, doutor em Filosofia, vai certamente causar um impacto em filósofos e teólogos. Nele, o autor desenvolve o tema sobre conclusões ou pressuposições, análises e seus efeitos sobre a teologia cristã. Sobre o tema da identidade, o autor assegura que a Bíblia afirma ser seu próprio intérprete. Mas a adopção de uma interpretação filosófica eventualmente mancha a identidade bíblica do cristianismo. A grande preocupação de interpretação, tanto na filosofia quanto na teologia é o conceito de Deus e pressuposições ligadas a este conceito. A partir desse ponto de partida o autor leva o leitor a uma viagem através do pensamento ocidental e grego, bem como ocidental e cristão.
A discussão sobre o assunto começa com a era pré-socráticos. Para Heráclito, a realidade era cíclica e sujeita a mudanças. Assim, ele elaborou sua reflexão do ponto de vista de uma realidade temporal. Parmênides, no entanto, olhou para uma realidade além do tempo e da mudança. Para ele, o conhecimento e a essência das coisas eram atemporais e imutáveis. Este pressuposto acabaria por dominar a filosofia como um todo. Então veio Sócrates com a ideia de que existem conceitos da verdade para todas as coisas. Isso inspirou Platão a procurar esses conceitos.
Kerbs propõe que Platão endossou Parmênides em sua busca pela essência das coisas dentro de um quadro atemporal, rotulando assim as coisas temporais e materiais como não reais. Definir a essência das coisas é ir além delas. É parar seu fluxo temporal para congelá-lo em um estado ideal. Mais tarde, a distinção aristotélica entre forma e matéria desenvolveu ainda mais o dualismo já instalado. A forma é a realidade atemporal e imutável. Foi com Aristóteles que a metafísica atingiu sua forma definitiva.
No capítulo dedicado a interpretação bíblica, Kerbs confronta o leitor com o ponto da virada entre filosofia e pensamento da Bíblia. Segundo ele, Êxodo 3:14 e 15 é uma interpretação bíblica do ego. Lá, Moisés recebe uma revelação da presença ôntica bem como histórica de Deus. Lá, a revelação de Deus conecta Sua presença histórica com um passado e um futuro. A existência de Deus é revelada em sua manifestação histórica. A Bíblia não faz distinção entre o nível atemporal de Deus e o nível histórico de seu trabalho em nome de Sua criação. Assim, a Bíblia deve ser lida a partir dos seus próprios pressupostos interpretativos, e estes não são os mesmos que os da filosofia. A Bíblia oferece uma base cognitiva para interpretar o ser de Deus dentro do tempo, não da atemporalidade e imutabilidade da filosofia grega.
Em seguida, o autor se move para mostrar que era durante o conflito entre a fé cristã e a filosofia que os primeiros padres cristãos adotaram os pressupostos da filosofia que se tornaram os pressupostos não impugnados da interpretação bíblica. Agostinho foi conclusivo sobre pensamento teológico, porque para a teologia cristã o mundo temporal e histórico da revelação bíblica, não é a esfera do verdadeiro conhecimento. Assim, a existência de Deus é interpretada conforme Parmênides e Platão. Segundo Agostinho, a teologia baseada na revelação não é nem a esfera do verdadeiro ser nem do verdadeiro conhecimento. Para ele, a teologia deve procurar a verdade além da Bíblia. Thomas também aplica ao seu questionamento sobre Deus às categorias filosóficas de atemporalidade e imutabilidade. Através de Thomas, a teologia pegou emprestado métodos, demonstrações e pressupostos da filosofia. Como consequência, a harmonização da razão e da fé foi alcançada com base na interpretação filosófica. No capítulo dedicado à Ockham, Kerbs procura quebrar a hegemonia da escolástica, sem abandonar as interpretações filosóficas das pressuposições sobre a mente.
No capítulo sobre a teologia dos reformadores, Kerbs mostra que não houve uma descontinuidade com o passado no que diz respeito aos assuntos já discutidos. Embora Lutero aparentemente tentasse distanciar-se de filosofia, ele novamente interpretou Deus do pressuposto da atemporalidade. Para Calvino, a realidade imaterial, eterna e espiritual é a única verdadeira. Segundo ele, tudo, incluindo o mal, foi decretado por Deus de antemão. O protestantismo ortodoxo não escapou dos pressupostos da filosofia sobre o ego e Deus. No século XX, alguns evangélicos reconheceram que a teologia da ortodoxia protestante não se opunha à filosofia e que um aristotelismo moderado dominou o pensamento protestante de ambos luteranos e calvinistas.
Em suma, a tese do Dr. Kerbs é que a epistemologia filosófica grega baseada na razão valida os pressupostos de "eternidade" e "imutabilidade", que por sua vez conceituam o ontos e o theos. Na Bíblia, pelo contrário, o theos decide a epistemologia e seus pressupostos na "Historicidade" e "revelação" que por sua vez determina o ontos do Deus da Bíblia. Aqui reside a identidade bíblica do cristianismo. Isso torna necessário não uma desconstrução, mas uma construção da teologia cristã como um todo.
O livro é inovador, provoca o pensamento, deve ser lido por aqueles que estão envolvidos na aventura de pensar; inclui 20 gráficos, 150 gráficos de apoio, e uma bibliografia básica geral.
