
Ángel Manuel Rodríguez
BRI (retired)
Baseado em Gênesis 9:3 – “Tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento; como vos dei a erva verde, tudo vos dou agora.” – não seria correto concluir que após o dilúvio aos seres humanos foi permitido comer a carne tanto de animais limpos como de animais imundos?
A passagem parece, sim, apoiar sua sugestão, mas somente se ignorarmos o contexto. Existem também questões relacionadas ao significado da terminologia usada, que deve ser levada em consideração ao buscarmos uma melhor compreensão da passagem.
1. Animais limpos e animais imundos: A narrativa do dilúvio introduz, pela primeira vez na Bíblia, uma distinção entre animais limpos e imundos. O texto parece assumir que eles podiam ser distinguidos uns dos outros ainda que todos pertencessem à mesma categoria de forma geral, a categoria dos animais: gado (bestas), pássaros e animais rastejantes (Gn 6:18, 19; 7:2, 3; 8:17). A distinção é anterior à entrega da lei dos animais limpos/imundos no Sinai (Levítico 11). Conquanto na narrativa do dilúvio não seja dada nenhuma razão explícita para a distinção, a diferenciação desempenha um papel importante na narrativa. O valor dos animais limpos é particularmente enfatizado pelo fato de sete pares de cada um deles ter entrado na arca, enquanto apenas um par dos animais imundos foi preservado.
Todos os animais foram conduzidos à arca por propósitos de sobrevivência, a fim de preservarem sua classe. Depois do dilúvio eles iriam se multiplicar e novamente povoar a terra (Gn 9:17). Mas no caso dos animais limpos, a intenção ia além de servir somente à sobrevivência. Isso é indicado pelo que aconteceu depois que Noé e os animais saíram da arca. “Levantou Noé um altar ao SENHOR e, tomando de animais limpos e de aves limpas, ofereceu holocaustos sobre o altar.” (Gen 8:20). Animais limpos foram usados como sacrifícios a Deus em gratidão pela preservação de Noé e sua família. Esses sacrifícios foram colocados em Seu altar (na mesa do Senhor, por assim dizer), e Ele os aceitou.
2. A terminologia usada: A frase “tudo que vive e se move” parece ser toda inclusiva, mas esse não é necessariamente o caso. “tudo” ou “tudo que vive e se move” são expressões usadas na história para se referir a “todos” os animais imundos (Gn 6:19) bem como a “todos” os animais limpos (Gn 7:2). A frase “que vive e se move” é problemática e não é empregada em nenhum outro momento da narrativa do dilúvio. Enquanto “o que vive” é usado em outras partes da história para se referir às criaturas vivas (Gn 6:19, 8:21), “que se movem” (Hebraico remeś, “animal que rasteja”) designa principal animais pequenos como répteis (e.g. Gn 6:7; 7:23). Uma tradução literal seria: “todos os pequenos animais que rastejam servirão de alimento para vocês”. A outra possibilidade é interpretar o termo hebraico como designando animais, em geral, baseado do uso do verbo e não do substantivo (e.g., Gn 7:21; Sl 104:20). Essa é a interpretação mais comum dessa frase entre os estudantes da Bíblia. Mas a singularidade da expressão, bem como o uso de “tudo/todos” para designar todos os animais limpos ou todos os animais imundos sugere que o escritor bíblico não estava necessariamente se referindo a todos os tipos de animais, mas somente aos animais limpos.
3. Determinação dietética: A passagem é sobre comida para os seres humanos e, portanto, regulamenta a dieta humana. Deus modificou a dieta humana imediatamente depois da queda, permitindo a Adão e Eva comerem “a erva verde” (Gn 9:3). Interessantemente, de acordo com Gênesis 1:30, a frase “erva verde” (yereq cēśv) era uma designação geral para a comida dos animais. Mas em Gênesis 9:3 a mesma frase é usada para se referir à “ervas que dêem sementes” (e.g., legumes e cereais) como indicado em Gênesis 3:18. A frase toda inclusiva “erva verde” não é toda inclusiva, mas restrita ao significado encontrado em Gênesis 3:18. Agora o Senhor está permitindo aos seres humanos comer a carne dos animais como alimento; e novamente, não é carne em geral, mas certos tipos de carne. O contexto sugere fortemente que essa era a carne dos animais limpos. Aos seres humanos foi permitido trazer às suas mesas o mesmo tipo de carne que foi usada na mesa do Senhor.