Temeu ou Não Temeu? – Hb 11:27

Ekkehardt Mueller

Ekkehardt Mueller

Retired, Associate Director of the Biblical Research Institute

Em Hebreus 10:35 os leitores são conclamados a não desprezar sua confiança, pois aqueles que perseverarem receberão a promessa, cujo foco é a segunda vinda de Jesus e a salvação final (10:36-39). Como isto é possível? Pela fé! Hebreus 11:1 enfatiza que fé é “ver” o invisível. Fé se centraliza em Deus (11:6) e resiste, tal como os heróis da fé resistiram. Os mais famosos entre estes heróis da fé foram Abraão e Moisés.

Em uma referência posterior a Moisés o autor de Hebreus afirma: “Pela fé ele deixou o Egito, não temendo a ira do rei” (11:27). Se esta for uma referência a Êxodo 2:14, 15, a pergunta é: “Moisés temeu ou não?” – porquê de acordo com a passagem de Êxodo Moisés ficou temeroso e fugiu para Midiã. Qual texto está correto, Êxodo ou Hebreus? O autor de Hebreus se esqueceu da narrativa de Êxodo ou ele reinterpretou uma citação do VT? Se a última hipótese for verdadeira quais são as implicações?

O autor de Hebreus era bem versado no VT. Citando-o repetidamente e fazendo alusão a este, ele baseia seu entendimento sobre Jesus e Sua obra nele. Por esta razão, seria extremamente estranho para ele fazer tal espoliação. Se ele a fez deliberadamente, questionaríamos sua fidelidade. Ele pertenceria ao grupo daqueles que embelezam histórias antigas justamente para tornar o herói irrepreensível e quase sobre- humano. As duas opções são problemáticas.1 Portanto, eruditos têm procurado soluções que façam justiça às duas passagens – Êxodo 2:14, 15 e Hebreus 11:27. Abaixo estão algumas sugestões:

  1. Hebreus 11:27 não se refere à fuga de Moisés para Midiã (Êx 2:14, 15), mas ao Êxodo do Egito. Quando Moisés e os Israelitas deixaram o país, Moisés não temeu Faraó, mas confiou em Deus.2

  2. Hebreus 11:27 faz alusão a Êxodo 11:8 onde Moisés anuncia a última praga. É sugerido que o autor de Hebreus entendeu a frase “ardendo em ira” como se referindo ao Faraó em vez de a Moisés como é encontrado em Êxodo.3

  3. Quando Moisés fugiu para Midiã ele aumentou a ira do Faraó que de outra maneira poderia ter se acalmado. Apesar de ter fugido por medo, sua renúncia de uma posição na corte foi um ato de fé.4

  4. Moisés fugiu para Midiã porque estava temeroso, mas ele ainda tinha fé que Deus o usaria de algum modo para libertar seu povo.5

  5. “...o foco do autor aqui é simplesmente sobre Moisés ‘deixando o Egito’ como Abraão deixou sua terra natal quando orientado deixou seu lugar em sua sociedade para trás.”6 Ele não está especificamente interessado na fuga para Midiã ou no Êxodo.

  6. De acordo com Hebreus 11:23 os pais de Moisés não ficaram temerosos com o decreto do Faraó, um detalhe não encontrado em Êxodo 2:2. Do mesmo modo a declaração paralela em Hebrews 11:27 enfatizando que Moisés não estava com medo do Faraó não ocorre em Êxodo. O autor de Hebreus desejava afirmar que pela fé Moisés venceu qualquer medo do Faraó, um pensamento encontrado implicitamente no VT. Mantendo o Deus invisível diante de ele, Moisés venceu “seu temor através da fé.”7

A maioria dos intérpretes vê Êxodo 2:14, 15 como o segundo plano de Hebrews 11:27. Suas interpretações são complementares em alguma extensão. O problema com a interpretação do Êxodo é que Faraó e seu povo desejavam que os Israelitas fossem embora. Ao mesmo tempo não existe razão para ficar temeroso. Além disso, a sequência cronológica dos eventos retratados em Hebreus 11:27, 28 seria destruída, se o Êxodo precedesse a Páscoa. Embora o autor de Hebreus nem sempre proceda cronologicamente (Heb 11:8-19), em nossa passagem ele parece faze-lo. Quando falando sobre Moisés ele usa cinco vezes a frase “pela fé.” A primeira se refere ao seu nascimento, a segunda à sua vida adulta, a terceira à sua partida do Egito, a quarta à Páscoa e a quinta à passagem pelo Mar Vermelho. Portanto, parece melhor ligar Hebreus 11:27 com Êxodo 2:14, 15.

Êxodo 2:14, 15 é interessante na medida em que o temor de Moisés não esteja diretamente ligado com sua fuga.8 Nem a ira do rei é expressa diretamente. Esta pode ser uma razão por que Filo (Moisés 1.49, 50) e Josefo (Antiquities 2:254-256) não ligaram o motivo do medo com a partida do Egito.9 O autor de Hebreus pode ter decidido fazer uma abordagem semelhante. Ele certamente não nega que Moisés estava temeroso, mas ao lado do seu medo existia fé.

As duas declarações paralelas nos versos 23 e 27 são admiráveis: “eles [os pais de Moisés] não temeram o decreto do rei;” “ele [Moisés] não temeu a ira do rei.” No final, Moisés foi movido pela fé em vez de pelo temor. A fé triunfou sobre o temor, porque Moisés manteve o Invisível diante dos seus olhos. Desta maneira os leitores de Hebreus, aqueles do primeiro século A.D. e aqueles através dos séculos, incluindo a nós, podem perseverar


  1. Contudo têm sido apoiadas por alguns expositores. Veja James Moffat, A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Hebrews, The International Critical Commentary (Edinburgh: T. & T. Clark, 1979), p. 182.

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  2. Para uma discussão deste ponto de vista veja William L. Lane, Hebrews 9-13, Word Biblical Commentary 47B (Dallas: Word Books, Publisher, 1991), pp. 374-375.

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  3. Cf., Paul Ellingworth, The Epistles to the Hebrews, The New International Greek Testament Commentary (Grand Rapids: Wm B. Eerdmans Publishing Company, 1993), p. 615.

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  4. Cf. C. F. Keil, and F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament, Vol. 1: The Pentateuch (Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1982), 432. Veja também Moffat, p. 182.

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  5. Francis D. Nichol, (ed.), The Seventh-day Adventist Bible Commentary, (Washington: Review and Herald Publishing Association, 1957), vol. 7, p. 477.

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  6. David A. deSilva, Perseverance in Gratitude: A Social-Rhetorical Commentary on the Epistle “to the Hebrews” (Grand Rapids: Wm B. Eerdmans Publishing Company, 2000), p. 412.

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  7. Cf. F. F. Bruce, The Epistle to the Hebrews, New International Commentary on the New Testament (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, Publishing Company, 1972), pp. 321-322.

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  8. Cf. Lane, p. 375.

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