Herbert E. Douglass
A fé é demonstrada no Novo Testamento como uma experiência existencial. Porém, a revelação da fé Cristã autêntica expõe um conteúdo de pensamento radicalmente diferente do que é desenvolvido no existencialismo filosófico.
Esta diferença radical entre o existencialismo do Novo Testamento e muito do existencialismo moderno é possível porque o existencialismo é primariamente uma maneira de pensar em vez de um sistema de pensamento discreto. Pensadores existenciais podem diferir amplamente seus conceitos a respeito de Deus, da causa para a ansiedade do homem, ou do significado da existência do homem. Contudo, todos eles partilham uma abordagem comum destas questões fundamentais.
Por exemplo, pensadores existenciais, incluindo escritores Bíblicos, concordam, acima de tudo, que existe uma distinção básica entre essência e existência (isto é, entre os mundos do pensamento e da realidade), e que o mundo da realidade, ou existência, é primário. Eles creem que a verdade a respeito da existência não é compreendida pela mera razão mas pela reflexão da experiência real do indivíduo como uma pessoa esperançosa, temerosa, amorosa, desejosa, ansiosa. A verdade, para os existencialistas, não é compreendida até que o pensador experimente o impacto das questões vitais da existência, tais como a morte e a responsabilidade ética, em sua própria vida de decisão. De fato, a compreensão para os problemas básicos da existência permanece muito elevada para a pessoa que recusa envolver todo o seu eu na tomada de decisão. O afastamento teórico é mera representação quanto questões existenciais estão em risco, e consequentemente não conduz à verdade.
Contudo, existe um abismo entre o entendimento Bíblico de Deus, da vida, da verdade, da fé, da subjetividade, da ansiedade, da morte, da essência e existência e aquilo que os existencialistas filosoficamente orientados pretendem. O conteúdo do pensamento autêntico da fé do Novo Testamento é radicalmente diferente do de Sartre, Camus e Heidegger, por um lado e o de Tillich e Bultmann de outro, porque a experiência existencial da fé Cristã autêntica é, como desenvolvida no Novo Testamento, sui generis. Ela é única primariamente porque a experiência é iniciada em Deus e não iniciada no homem.
Embora os escritores Bíblicos concordem com a maioria dos outros existencialistas que a verdade deve ser apropriada interiormente, que o homem é único e não deve ser desumanizado dentro de unidades organizacionais ou meramente biológicas, que a ansiedade deve ser reconhecida e tratada construtivamente, que a crença em Deus não está no fim do esforço racional, etc., a diferença vital e consequentemente fundamental que surge e torna a Bíblia única é que os escritores Bíblicos insistem que o homem não pode responder as questões básicas da existência pela própria autorreflexão ou mera tomada de decisão. A fé Cristã inicia como uma resposta pessoal a um Deus auto comunicador e o conhecimento obtido através deste encontro é tal que ele não pode ser aprendido de outra maneira a não ser esta, nem através da razão, intuição, sentimento, ou pesquisa histórica.
Para o homem de fé autêntica, a existência precede a essência. Apenas o Cristão conhece o significado e propósito da existência humana mas este conhecimento é seu somente depois que ele compreende que é uma pessoa responsável (isto é, alguém capaz de responder), e que ele tem ansiedades inescapáveis até que ele seja reconciliado com o seu Criador e Senhor. Mas esta informação sobre sua natureza essencial não é uma questão da razão ou mesmo da aceitação passiva do testemunho de qualquer outra pessoa. É um conhecimento que vem a ele, que o apreende – não conhecimento que ele “descobre” ou percebe pelos métodos normais da atividade mental.
Fé – Um Relacionamento entre Pessoas
Pistis (fé) do Novo Testamento é empregada para descrever este relacionamento correto do homem responsável ao Senhorio do Deus auto comunicador. Teologia, como estabelecida na Bíblia, é a história de um relacionamento pessoal entre o Deus Criador, a Pessoa Eterna, e homens e mulheres que foram criados para ser Suas contrapartes pessoais. Não importa a natureza da resposta do homem à auto comunicação de Deus, ele não pode deixar de estar em alguma espécie de relacionamento com o seu Criador. Ele não pode ignorar o chamado de Deus; o homem pode ser responsivo ou não responsivo, mas não sem resposta. O homem é sempre responsivo.
Desde o momento da criação a dialética infinita da parte de Deus tem sido por um lado a autoafirmação de Deus como Alguém Santo (Alguém para quem não existe outro), e por outro lado a auto comunicação de Deus, como Alguém que ama incondicionalmente. Da parte do homem quando ele responde a esta dialética eterna na natureza de Deus, a ênfase é Senhorio e Companheirismo – os temas centrais da Bíblia e todo o assunto da proclamação Cristã.
Porque Deus pode ser Senhor apenas sobre aqueles que são capazes de responder com suas decisões e lealdades, Ele fez o homem “à Sua imagem” para que pudesse haver companheirismo entre eles. Deus pode estar em comunhão somente com pessoas que podem responder ao Seu amor com amor. Desse modo o destino do homem era existir como uma pessoa amorosa, um ser em relacionamento correto com todas as outras pessoas. O homem, em sua liberdade, foi bem sucedido e cumpriu seu destino somente enquanto ele permaneceu em acordo com sua natureza essencial como criado por Deus. Ao substituir este destino original por algum outro de sua própria criação estava se rebelando contra a vontade de um Deus pessoal. Quando a “existência para amar” não se tornou “existência em amor” o companheirismo original entre Deus e o homem foi rompido; o homem tinha se afastado de Deus como seu Senhor e se colocado como autônomo.
Todavia, como o homem foi por natureza criado para se relacionar com os outros (isto é, uma essência que cumpriu seu propósito na espécie correta de existência), ele não poderia livrar-se de seu relacionamento essencial com Deus mesmo embora ele fizesse o seu melhor para ignora-lo ou evadir-se de ele. O homem continuou responsável porque sua fuga de Deus foi uma decisão pessoal (uma decisão existencial) e porque, em sua rebelião, Deus não o deixou “sem perdão.” De muitas maneiras, Deus tem lembrado o homem de seu vigor, e também do Seu contínuo desejo por companheirismo.
Desse modo, o alvo da auto comunicação de Deus tem sido procurar obter de volta a livre resposta de confiança, amorosa dos seres humanos. Sua Palavra vai e a fé responde: o ato pessoal de fé se torna correlato ao ato de auto comunicação de Deus. Esta transação pessoal de companheirismo não é a mera aceitação de alguma coisa que aconteceu no passado. Ela não é o consentimento mental às mesmas declarações verdadeiras de Deus. A fé autêntica é um acontecimento contemporâneo na vida dos discípulos modernos nos quais a Palavra (a comunicação pessoal da auto comunicação de Deus) fala hoje através da Palavra da História e da Palavra do Espírito tão vividamente como no passado. Nesta experiência um homem responsivo sabe que Deus o aceitou como um filho perdoado com a mesma autenticidade comparável compartilhada por qualquer um dos escritores dos evangelhos.
Ellen G. White entendia bem esta natureza existencial da fé, que a experiência de fé repousa sobre o nível existencial em vez de sobre o intelectual:
A fé que opera salvação, não é mero assentimento intelectual à verdade. Aquele que espera inteiro conhecimento antes de exercer fé, não pode receber bênção de Deus. Não basta crer no que se diz acerca de Cristo; devemos crer nEle. A única fé que nos beneficiará, é a que O abraça como Salvador pessoal; que se apropria de seus méritos. Muitos têm a fé como uma opinião. A fé salvadora é um ajuste pelo qual aqueles que recebem a Cristo se unem a Deus em concerto. Fé genuína é vida. Uma fé viva significa acréscimo de vigor, segura confiança pela qual a alma se torna uma força vitoriosa. (Itálicos no original.)1
O Relacionamento da fé Revela a Verdade sobre o Homem e Deus
Ligando fé com conhecimento alguma outra coisa além da cognição normal está sendo considerada; a fé autêntica não é alcançada por meios intelectuais normais ou por processos intuitivos. Deste ponto de vista, o homem de fé, em vez do conhecedor, se torna conhecido e Deus é o conhecedor. O que a fé aprende é aquilo que Deus tem falado com autoridade única e a melhor resposta do homem é crer naquilo que ele ouve – uma crença que conduz a uma maneira inteiramente nova de se relacionar com a realidade, ou existência. Ellen G. White enfatiza frequentemente que “é contrição e fé e amor que habilitam a alma a receber sabedoria do Céu. Fé que opera por amor é a chave do conhecimento, e todo que ama ‘conhece a Deus.’ 1Jo 4:7.”2
Primeiro, fé é estar consciente que Deus é o Senhor que Ele merece tanto obediência como Amor, que merece uma confiança que responde e ama. Quando Deus diz: “Eu sou o Senhor teu Deus, o Criador,” isto significa “Tu és minha propriedade.” Existe alguma coisa inerentemente absurda quando um ser criado escolhe desconsiderar o desígnio do seu Criador para sua vida. Mas entender Deus como Senhor sem conhece-Lo como Amor subjugaria o homem e o levaria ao mais profundo desespero. No centro da apresentação Bíblica da salvação está a fé como a resposta do homem a Deus que exige e assegura. O homem ouve Deus chama-lo, não como mera propriedade, mas como Seu filho, aceito com todos os privilégios de um filho. Desse modo o Senhor Santo também é o Pai Amoroso. Esta informação é conhecida com certeza apenas pelo homem de fé.
Mas existe mais do que ser instruído. Fé é também a consciência do estado do homem como rebelde. Antes que Deus seja conhecido como Senhor, o homem não conhece outra autoridade a não ser a sua própria à qual ele é responsável. Mas no ato de fé o homem aprende Quem somente é Aquele que tem o direito a chama-lo para prestar contas. Afastar-se de Deus não é apenas rejeitar a autoridade legítima mas a verdade sobre a existência. Quando Deus é visto como Senhor, o apelo para a autonomia é visto em sua impotência e colapso final. A resposta de fé inclui a revelação e a remoção deste anelo humano iludido ansiando por autonomia. A fé diz: “Tu és o Senhor, eu não pertenço a mim mesmo mas a Ti.”
A fé não surge até que uma pessoa compreenda quão sem esperança é sua necessidade e nesta descoberta negativa (não apenas da angústia humana mas também sua culpa na rebelião) surge a esperança exatamente onde ele está em necessidade, uma Pessoa que satisfaz suas necessidades pessoais. Como com o centurião, do mesmo modo todo homem, “nos ensinos de Cristo, … encontrará aquilo que satisfazia às necessidades da alma.’3 Um Deus pessoal irrompe através do perímetro da autonomia do homem e é aceito como um amoroso invasor que deseja apenas a regeneração e restauração da propriedade perdida por algum tempo. Para o Cristão autêntico, as ansiedades da vida não são coisas naturais à sua existência a serem bravamente suportadas. Ele vê as ansiedades como um estado não natural, que pode ser superado pela graça de Deus.
Tal era o problema de Nicodemos, e sua experiência é comum a todos os homens:
Nicodemos fora ter com o Senhor pensando em entrar com Ele em discussão, mas Jesus expôs-lhe os princípios fundamentais da verdade. Disse a Nicodemos: Não é tanto de conhecimento teórico que precisas, mas de regeneração espiritual. Não necessitas satisfazer tua curiosidade, mas ter um novo coração. É mister que recebas nova vida de cima, antes de te ser possível apreciar as coisas celestiais. Antes que se verifique essa mudança, tornando novas todas as coisas, nenhum salvador proveito tem para ti o discutir comigo Minha autoridade ou missão.4
Tal revelação da fé acentua a natureza existencial da fé – que a fé não é alguma coisa descoberta pelos processos mentais comuns e desse modo possuída pelo homem. A verdade agora possui o homem mas somente quando o homem de fé responde de todo o coração vivendo e praticando a verdade. (Jo 7:17).
A Verdade Descoberta nas Decisões Existenciais
A verdade é existencialmente apreendida porque a verdade em si é uma descrição dos relacionamentos corretos, os quais por um lado devem existir dentro de toda criação, e por outro lado, entre toda a criação e seu Criador. Nada é estático – toda criação está em alguma espécie de relacionamento dinâmico com suas contrapartes. Opor-se ao relacionamento próprio ou destinado é rejeitar a vida e convidar ao desastre. Por esta razão, “fé genuína é vida.”5
Deus não é reconhecido como Senhor exceto pelo homem que reconhece sua impotência humana e que escolhe aceitar Sua reivindicação e exigências bem como Suas ofertas e promessas. O ato de fé é uma decisão de obediência em resposta a Deus que tem um encontro pessoal com o homem. As últimas palavras da carta aos Romanos parecem resumir bem este aspecto do encontro da fé:
Ora, àquele que é capaz de se colocar sobre seus próprios pés – de acordo com o meu evangelho, de acordo com a pregação do próprio Jesus Cristo, e de acordo com a revelação desse propósito secreto que, depois de longas eras de silêncio, agora se tornou conhecido (em plena concordância com os escritos dos profetas de há muito tempo), pela ordem do Deus eterno a todos os Gentios, para que eles pudessem se voltar para ele em obediência de fé…6
Pistis, carregando em seu significado as dimensões mais completas de crença e confiança, é o relacionamento predominante entre o Cristão autêntico e Deus. “Fé abrange não só a crença mas também a confiança.”7 A fé conduz à obediência amorosa somente quando o homem está convencido que o fundamento de Deus para sua vida é mais seguro que o seu próprio. Pistis desperta somente quando o homem está confiante que Deus será tão gracioso com misericórdia e poder como Ele prometeu; a fé desperta quando o homem vê como Deus em Seus atos tem provado ser digno de confiança.
“Incredulidade” (a-pistis de Hb 3:19) é a base de todo pecado. Rebelião, a decisão de colocar algum outro senhor no lugar do Senhor do Céu, brota da falta de fé, e declara a quebra das relações pessoais. Este foi o argumento de Paulo em Hebreus 3 e 4:
Sim, é tudo tão claro que foi por recusar confiar [apistis, falta de fé] que Deus impediu esses homens de entrarem em seu repouso. Ora, sendo que a mesma promessa de repouso é oferecida a nós hoje, estejamos continuamente em guarda para que nenhum de nós pareça que está deixando de atingi-lo. Porque nós também temos um evangelho que nos foi pregado, como esses homens tinham. Embora a mensagem proclamada a eles não lhes tenha feito bem, porque eles ouviram mas não creram tão bem. É apenas como resultado de nossa fé e confiança que nós experimentamos esse repouso.8
Reconciliação com Deus, “seu descanso,” é sabido que pode ser obtido apenas através da decisão pessoal. Nem a lógica sagaz nem a amplitude do intelecto podem compreender a verdade sobre a natureza essencial do homem ou seu destino. Somente quando o homem começa com sua existência, vê sua natureza como uma tensão dinâmica de contradições, estudos das consequências lamentáveis destas inclinações contraditórias e a inabilidade humana a competir com elas, ele estará preparado para receber o evangelho reconciliador e resolução de problemas sempre presente, através de Jesus Cristo. Esta análise pessoal da situação humana pode ser elementar ou sofisticada mas é o próprio ato de chegar à conclusão da impotência humana em face da graciosa oferta de Deus que é em si mesmo um ato todo abarcante do homem todo na decisão. O completo acompanhamento da resposta pessoal de Deus do “sim” ao “sim” do homem é conhecimento sui generis, além da compreensão humana por um lado, mas profundamente simples e autêntica por si mesma por outro.
Ellen G. White poderia escrever o texto a seguir somente depois de sua própria experiência existencial de fé:
A percepção e apreço da verdade, disse Ele, depende menos da mente, que do coração. A verdade deve ser recebida na alma; exige a homenagem da vontade. Se a verdade pudesse ser submetida unicamente à razão, o orgulho não serviria de obstáculo à recepção da mesma. Mas deve ser recebida mediante o operar da graça no coração; e sua recepção depende de renunciar de todo pecado que o Espírito de Deus revela. As vantagens do homem para obter o conhecimento da verdade, por grandes que sejam, não lhe aproveitarão coisa alguma, a menos que o coração esteja aberto para receber a mesma verdade, e haja conscienciosa renúncia de todo hábito e prática opostos a seus princípios. Aos que assim se entregam a Deus, tendo sincero desejo de conhecer e fazer-Lhe a vontade, a verdade se revela como o poder divino para a salvação.9
A Fé tem sua Origem na Resposta à Palavra
Especialmente aqui o testemunho Bíblico atravessa todas as outras formas de pensamento existencial bem como quaisquer epistemologias filosoficamente baseadas. O homem de fé não descobre a verdade sobre a existência por qualquer forma da atividade humana, iniciada pela razão, intuição, sentimento, ou pesquisa histórica. A fé autêntica é primeiro confrontada por um Tu que se levanta contra o homem e que Se apresenta como Alguém digno de confiança. Deus, para o Cristão, não é um poder interior, ou uma “razão de ser” mas uma Pessoa que é infinitamente outro além do homem do ponto de vista do tempo e do ser. A expressão mais clara de Ele Se dirigir ao homem foi comunicada no Deus Encarnado, em Jesus Cristo como um evento histórico. Para os Cristãos, este encontro histórico é o fundamento sólido para a fé Cristã.
Porém, Jesus como o Homem de Nazaré, a Pessoa histórica, não é, como tal, a Palavra toda suficiente que para se conhecer se deveria evocar a fé. Se isto fosse verdade, todos aqueles que viram e ouviram Seu testemunho diário O teriam reconhecido como seu Senhor. O aspecto notável do testemunho de Pedro em Cesárea de Filipe (Mateus 16) foi que aqui, pela primeira vez, a natureza da fé Cristã autêntica era revelada. A resposta de Jesus à afirmação de Pedro revela que a fé Cristã é o produto de uma maravilhosa união da Palavra histórica e a Palavra interior.
A verdade confessada por Pedro é o fundamento da fé do crente. É aquilo que o próprio Cristo declarou ser a vida eterna. A posse deste conhecimento, no entanto, não oferece motivo para nos glorificarmos a nós mesmos. Não fora por meio de sabedoria ou bondade do próprio Pedro, que ele lhe havia sido revelado. De si mesma, não pode a humanidade nunca chegar ao conhecimento do divino... Unicamente o Espírito de adoção nos pode revelar as coisas profundas de Deus, as quais ‘o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem.’10
A fé não poderia surgir sem a Palavra histórica; contudo, ela nem poderia surgir separada da Palavra interior que Pedro estava desejoso para reconhecer como a Palavra da verdade. Pedro reconheceu que aquilo que Jesus disse historicamente e o que o Espírito disse interiormente era verdade a respeito de Ele como um homem e que ele precisava daquilo que Eles ofereciam como a solução para o homem.
Porque o testemunho histórico é fundamental para a fé Cristã, os apóstolos se tornaram o fundamento da igreja Cristã. Sem os apóstolos a igreja Cristã não existiria; os apóstolos são distinguidos de todos os crentes posteriores pelo fato que eles receberam sua fé num encontro direto, imediato, histórico com Deus e não através da mediação de outros seres humanos. Sua fé, quando eles testemunharam de ela, ajudou a gerar a fé de outros que através de eles acharam seu próprio encontro pessoal com Deus.
Os apóstolos foram os primeiros de muitas comunidades de fé que se seguiram. Essas comunidades primitivas de crentes consideravam sua responsabilidade proteger e preservar o testemunho histórico dos apóstolos; elas colecionaram seus escritos e os distribuíram com uma clara demarcação entre eles e todos os outros escritos religiosos.
Mas a transmissão do evangelho não foi meramente uma questão de comunicar informação histórica. Não foi apenas a mensagem a respeito de Cristo e Seu encontro de primeira mão com os apóstolos que a Igreja transmitiu através dos anos. Se a Igreja meramente passasse adiante a Bíblia como um documento factual não teria existido nenhum “crente” nos dias que se seguiram. A fé genuína não era e não é “crer a respeito” mas uma resposta contínua ao amor de Deus contemporâneo e autoconcedido que cada geração pode receber de novo. A confissão de Pedro, que se tornou o paradigma e fundamento de toda fé a seguir, aceitou tanto o testemunho histórico como o testemunho interior e este encontro combinado trouxe Pedro aos seus joelhos e transformou sua vida. A verdade que Pedro aprendeu tanto através do testemunho histórico como da Palavra interior é o que resolveria seus problemas humanos se ele aprendesse como amar aos outros como Deus o tinha amado, bem como confiar em Deus para responder suas necessidades existenciais mais prementes. Este era o evangelho que chocou a primeira geração.
A Experiência de Fé Autentica a si Mesma
A Palavra interior é o Espírito Santo. Jesus tornou claro que a principal função do Espírito é dar Seu testemunho. A bela verdade sobre a obra do Espírito Santo é que Ele não apenas torna a pessoa de Jesus Cristo presente, mas também acondiciona pessoalmente a verdade de tal maneira que ela responde às necessidades especiais de cada indivíduo. Isto é básico para a máxima existencial que “verdade é subjetividade.” Se a verdade não for individualmente apropriada, se a verdade não apresentar significado e solução para cada indivíduo em particular, não haverá convicção duradoura. Não haverá fé pessoal e um Salvador pessoal.
João enfatizou a função do Espírito Santo como a de um testemunho para Cristo mas o “testemunho para” não é realizado por mera referência a um evento histórico. Fé não é mera memória de um evento passado, mas vida e atividade na presença dAquele que recria e está Ele próprio presente em Seus dons.
Pela fé, nós O contemplamos aqui no presente. Em nossa experiência diária, distinguimos Sua bondade e compaixão nas manifestações de Sua providência. Reconhecemo-Lo no caráter de Seu Filho. O Espírito Santo toma a verdade concernente a Deus e Àquele a quem Ele enviou, e descerra-a ao entendimento e ao coração.11
A obra do Espírito Santo é tornar a fé auto autenticadora. O testemunho Bíblico em si é o produto da fé; ele fala de um encontro com o Deus-homem que pode ser experimentado por qualquer homem que esteja desejoso de ouvir ao Deus que está falando. Mas a Bíblia permanece pura história para o homem que não compartilha sua fé; seu significado não é compreendido. Todavia, quando o homem responde ao Senhor das Escrituras, justamente como os escritores Bíblicos uma vez o fizeram, Seu Espírito no interior torna a verdade pessoalmente real a qual alegrou os corações dos apóstolos – “Deus está conosco.” Nenhuma linha de lógica, nenhum apelo à autoridade heterogenia agora é necessário. O testemunho interior auto validador do Espírito para o testemunho histórico exterior não requer nada mais como prova; ele é um testemunho auto autenticador não menos real aos homens hoje do que foi para os apóstolos.
Assim, mediante a fé, eles chegam a conhecer a Deus com um conhecimento experimental. Têm provado por si mesmos a realidade de Sua Palavra, a verdade de Suas promessas. Têm provado, e visto que o Senhor é bom.
O amado João tinha conhecimento adquirido pela própria experiência. Pode testificar: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida (porque a Vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada); o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com Seu Filho Jesus Cristo.”
Assim cada qual é capaz de, mediante a própria experiência, “confirmar que Deus é verdadeiro.” ... Ele pode testificar daquilo que por si mesmo tinha visto e ouvido e sentido do poder de Cristo. Pode testificar:
“Eu necessitava de auxílio, e o encontrei em Jesus. Toda necessidade foi suprida, satisfeita a fome de minha alma; a Bíblia é para mim a revelação de Cristo. Creio em Jesus porque Ele me é um divino Salvador. Creio na Bíblia porque achei nela a voz de Deus para minha alma.”12
A experiência auto autenticadora da fé comprova a validade das Santas Escrituras. A arqueologia, as linguísticas, a história ou até mesmo a interpretação profética, em última análise, não estabelece o fato que a informação que a Bíblia contém é incontroversamente verdadeira. Tais esforços humanos para recuperar o passado e para projetar evidências racionais, necessárias e úteis como elas certamente são, permanecem sujeitas às contingências e relatividades de alguma coisa humanamente reconstruída ou realizada. Ellen G. White mostra que “aquele que conhece a Deus e a Sua Palavra por experiência pessoal, tem uma firme fé na divindade das Santas Escrituras. Tem provado que a Palavra de Deus é verdadeira, e que a verdade não se pode nunca contradizer a si mesma.”13
A Bíblia foi escrita posteriormente a uma experiência existencial e pode ser corretamente entendida somente quando as palavras escritas conduzirem o leitor a uma mesma espécie de experiência que uma vez impeliu o testemunho escrito. A perversão da fé ocorre quando esta é reduzida a um exercício intelectual da memória e aceitação. Os argumentos para tal compreensão errada da fé repousam sobre as contingências alteradoras da história e raciocínios dogmáticos e quando a provação vem, a fé pervertida será verificada ser insuficiente. “Sem conhecimento pessoal com Cristo e constante comunhão achamonos à mercê do inimigo, e havemos afinal de fazer-lhe a vontade.”14
Para aqueles que estão preocupados com os problemas perenes da história antiga, tais como o dilúvio, a criação etc., o fundamento mais seguro para a estabilidade espiritual é a prova auto autenticadora da fé que comprova a validade dos apóstolos. “Aquele que adquiriu certo conhecimento de Deus e de Sua Palavra mediante a própria experiência, acha-se apto a empenhar-se no estudo da ciência natural.”15
Em resumo, a intelectualização teórica não valida ou nem mesmo entende as experiências existenciais. As contingências presentes no entendimento humano do conhecimento têm estado aparentes por séculos. A experiência existencial da fé possui uma lógica muito mais satisfatória que os processos normais do argumento humano, levando Ellen G. White a observar: “A verdade como é em Jesus, pode ser experimentada mas nunca explicada. Sua altura, largura e profundidade ultrapassam nosso entendimento.”16
A Fé Transforma a Existência
Homens de fé têm restaurado o relacionamento pessoal correto com Deus e com seus semelhantes. Eles estão cumprindo o propósito da revelação sendo recíprocos ao convite inicial de Deus para companheirismo. Desse modo, o homem de fé glorifica a Deus – ele reflete como espelho o modo de vida de Deus.
Consequentemente, de novo, somos forçados a usar termos existenciais para descrever a natureza da fé. A fé é dinâmica e envolve o homem todo na decisão quando ele resolve frequentemente fazer a vontade de Deus, a se relacionar com as outras pessoas como Deus tem mostrado. A fé não é um meio para um fim maior; ela é o grande fim que também é o grande princípio. Deus não pode pedir nada mais do que a resposta de fé. Fé não é “crer em alguma coisa” mas um acontecimento que fascina e muda a pessoa toda.
A fé genuína se manifestará em boas obras, pois boas obras são fruto da fé. Ao operar Deus no coração, e entregar o homem sua vontade a Deus, e com Ele cooperar, ele manifestará na vida aquilo que Deus operou em seu íntimo pelo Espírito Santo, e há harmonia entre o propósito do coração e a prática da vida. Todo pecado deve ser renunciado como a coisa odiosa que crucificou o Senhor da vida e da glória, e o crente tem de ter uma experiência progressiva, fazendo continuamente as obras de Cristo. É pela contínua entrega da vontade, pela obediência contínua, que se retém a bênção da justificação.17
Fé quando relacionada a Deus é obediência confiante e quando relacionada ao homem, ela é amar como Deus nos tem amado. De acordo com Gálatas 5:6, amar é a prova experimental da fé. O amor não apenas aceita os outros homens como pessoas mas também “como eles são.” O pecado considera as pessoas como se elas fossem objetos de exploração ou prazer. Fé é o relacionamento positivo – pecado, negativo. Ambos são existenciais e quando a Igreja Cristã permitia que o pecado e a fé deslizassem para a esfera intelectual, legalista, dano incontável era feito ao testemunho Cristão.
Uma religião legal é insuficiente para pôr a alma em harmonia com Deus. A dura, rígida ortodoxia dos fariseus, destituída de contrição, ternura ou amor, era apenas uma pedra de tropeço aos pecadores. Eles eram como o sal que se tornara insípido; pois sua influência não tinha poder para preservar o mundo da corrupção. A única fé verdadeira é aquela que ‘opera por amor’ (Gálatas 5:6), para purificar a alma. É como o fermento que transforma o caráter.18
Fé não consiste em tornar-se livre da Lei; pelo contrário, a fé inculca o caráter abstrato da Lei à vontade pessoal que se encontra atrás de ela, para a vontade pessoal de Deus que é Amor. A fé ouve o dom da graça de Deus mas não sem os chamados simultâneos à obediência. Com o indicativo (“Você é meu filho!”) sempre existe o imperativo do discipulado (“Seja meu filho!”).
Essa fé é inseparável do arrependimento e transformação do caráter. Ter fé significa achar e aceitar o tesouro do evangelho, com todos os deveres que o mesmo impõe.19
Na tarefa de “ser o que você é” está o plano Bíblico da santificação. Fé e ética estão indissoluvelmente entrelaçadas. A ética torna o homem protegido do lado da experiência de fé. Nisto não existe graça barata onde o homem aceita o dom sem dar atenção à reivindicação do Senhorio de Deus.
A profissão de fé e a posse da verdade na alma são duas coisas diferentes. Não basta meramente o conhecimento da verdade. Podemos possuir esta e ainda o teor de nossos pensamentos não ser alterado. O coração precisa ser convertido e santificado.
O homem que tenta observar os mandamentos de Deus por um senso de obrigação apenas – porque é requerido que assim faça – jamais entrará no gozo da obediência. Não obedece. Quando, por contrariarem a inclinação humana, os preceitos de Deus são considerados um fardo, podemos saber que a vida não é uma vida Cristã. A verdadeira obediência é a expressão de um princípio interior. Origina-se do amor à justiça, o amor à lei de Deus. A essência de toda justiça é lealdade ao nosso Redentor. Isto nos levará a fazer o que é reto, porque é reto, porque a retidão é agradável a Deus.20
Não é bastante crermos que Jesus não é um impostor, e a religião da Bíblia não é uma fábula artificialmente composta. Podemos crer que o nome de Jesus é o único debaixo dos Céus pelo qual devemos ser salvos, e contudo podemos não torna-Lo pela fé nosso Salvador pessoal. Não é bastante crer na teoria da verdade. Não é bastante fazer profissão de fé em Cristo, e ter nosso nome registrado no rol da igreja. ‘Aquele que guarda os Seus mandamentos nEle está, e Ele nele. E nisto conhecemos que Ele está em nós; pelo Espírito que nos tem dado.’ ‘E nisto sabemos que O conhecemos; se guardarmos os Seus mandamentos.’ 1João 3:24; 2:3. Esta é a evidência genuína da conversão. Qualquer que seja nossa profissão, nada valerá se Cristo não for revelado em obras de justiça.21
A transformação ética da Igreja é a razão para a demora do segundo advento de Jesus Cristo. O evangelho é vindicado somente quando suas reivindicações são realizadas e validadas nas vidas de seus adeptos. O Cristianismo é mais uma questão de exibição de um produto do que de proclamação de novas sobre Deus. O grande propósito da vida de Cristo sobre a terra foi demonstrar que o homem em sua existência pecaminosa pode ser elevado à uma nova existência que resolve os problemas duplos humanos – o do significado da vida e o do relacionamento interpessoal. Quer a história da beleza da Sua vida seja verdadeira ou não, o homem moderno pelo menos, dependerá do testemunho vivo desse poder que a Igreja pode exibir. O mundo está cansado de ouvir palavras sem poder, e poder sem significado.
Nossa confissão de Sua fidelidade é o meio escolhido pelo Céu para revelar Cristo ao mundo. Temos de reconhecer-Lhe a graça segundo nos é dada a conhecer através dos santos homens da antiguidade; mas o que será mais eficaz é o testemunho de nossa própria experiência. Somos testemunhas de Deus, ao revelar em nós mesmos a operação de um poder que é divino. Cada indivíduo tem uma vida diversa da de todos os outros, uma experiência que difere essencialmente da sua. Deus deseja que nosso louvor a Ele ascenda, com o cunho de nossa própria individualidade. Esses preciosos reconhecimentos para louvor da glória de Sua graça, quando corroborados por uma vida semelhante à de Cristo, possuem irresistível poder, eficaz para salvação de almas.22
O evangelho tem de ser apresentado, não como uma teoria sem vida, mas como força viva para transformar a vida. Deus deseja que os que recebem Sua graça sejam testemunhas do poder da mesma.23
Conclusão
A fé é uma experiência existencial porque ela se ocupa com a decisão e a transformação ética. A fé autêntica não pode existir a menos que o homem todo esteja envolvido em decisões radicais diariamente. Os problemas humanos mais prementes – morte, ansiedade, amor, ódio etc. – são os interesses centrais da fé autêntica. No coração da fé está a convicção inabalável e auto autenticadora que Deus falou a ele, através do testemunho histórico e do interior, numa corroboração mútua. O homem de fé não separa o expectador que assiste ao jogo da vida. Suas convicções a respeito dos problemas existenciais não são produtos do raciocínio humano. Ele é um homem que foi confrontado e apreendido por seu Senhor pessoal. Seu destino na fé é orientado por Deus, e em tornar sua a vontade do seu Senhor, ele encontra liberdade genuína e as soluções para a existência humana.
O Desejado de Todas as Nações, p. 347.
Back to referenceIbid., p. 139.
Back to referenceIbid., p. 315.
Back to referenceIbid., p. 171.
Back to referenceIbid., p. 347.
Back to referenceRm 16:25-26, Phillips.
Back to referenceMensagens Escolhidas, Livro 1, p. 389.
Back to referenceHb 3:19 a 4:2, Phillips.
Back to referenceO Desejado de Todas as Nações, pp. 455-456.
Back to referenceIbid., p. 412.
Back to referenceO Maior Discurso de Cristo, p. 26.
Back to referenceA Ciência do Bom Viver, pp. 460-461.
Back to referenceIbid., p. 462.
Back to referenceO Desejado de Todas as Nações, p. 324.
Back to referenceA Ciência do Bom Viver, p. 461.
Back to referenceParábolas de Jesus, p. 129.
Back to referenceMensagens Escolhidas, Livro 1, p. 397.
Back to referenceO maior Discurso de Cristo, p. 53.
Back to referenceParábolas de Jesus, p. 112.
Back to referenceIbid., pp. 97, 98.
Back to referenceIbid., pp. 312, 313.
Back to referenceO Desejado de Todas as Nações, p. 347.
Back to referenceIbid., p. 826.
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